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Utilização e sinergismo de bioestimulantes

Muriel C. E. Soares
Doutoranda em Proteção de Plantas – FCA/UNESP-Botucatu e analista de P&D – Technes Agrícola

Foto: Shutterstock

De acordo com o Plano Nacional de Bioinsumos (PNB) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), bioestimulantes são conceituados como “produto que contém substância natural com diferentes composições, concentrações e proporções, que pode ser aplicado diretamente nas plantas, nas sementes e no solo, com a finalidade de incrementar a produção, melhorar a qualidade de sementes, estimular o desenvolvimento radicular, favorecer o equilíbrio hormonal da planta e a germinação mais rápida e uniforme, interferir no desenvolvimento vegetal, estimular a divisão, a diferenciação e o alongamento celular, incluídos os processos e as tecnologias derivados do bioestimulante”.

Com base nesta definição, os bioestimulantes podem ser derivados de muitas fontes, incluindo fungos e bactérias benéficos, ácidos húmicos e fúlvicos, extratos de algas marinhas e outros vegetais, aminoácidos, entre outros.

Substâncias húmicas

As substâncias húmicas (SHs) são compostos orgânicos complexos e heterogêneos, resultado da deposição e/ou da degradação de resíduos orgânicos vegetais e animais, do metabolismo biológico destes compostos, da ciclagem do C, H, N e O da matéria orgânica do solo, pela biomassa microbiana e, ainda, da polimerização microbiológica dos compostos orgânicos cíclicos, resultando em substâncias complexas com diferentes pesos moleculares.

As SHs apresentam algumas características importantes, devido a sua estrutura, que conferem sua ação:

  • Polifuncionalidade: grande número de grupos funcionais, proporcionando amplo espectro de reatividade;
  • Carga macromolecular negativa: permite maior reatividade com outras moléculas;
  • Hidrofilicidade: tendência de formar fortes pontes de hidrogênio com a água;
  • Maleabilidade estrutural: capacidade de associação intermolecular e mudança na conformação molecular em função da mudança de pH, dos valores de redox, da concentração eletrolítica e da ligação com grupos funcionais.

Entenda melhor

Os ácidos húmicos e fúlvicos são os compostos mais importantes das frações húmicas. Ácidos húmicos constituem a maior fração e são solúveis em soluções alcalinas; ácidos fúlvicos são solúveis em toda a faixa de pH.

Apesar de possuírem similaridade estrutural aos ácidos húmicos, os fúlvicos apresentam menor peso molecular, maior quantidade de compostos fenólicos e de grupos carboxílicos e uma menor quantidade de estruturas aromáticas. Estas características lhes conferem melhor solubilidade em água e maior capacidade de troca catiônica.

Os aminoácidos são ácidos orgânicos que possuem em sua molécula um carbono central, geralmente assimétrico, ligado a um grupamento carboxila, um grupamento amina e um átomo de hidrogênio. Além destas três estruturas, os aminoácidos apresentam um radical genericamente conhecido como “R”, que os diferencia e indica polaridade, estrutura, solubilidade e função de cada um.

Dentre os extratos de algas marinhas, a macroalga Ascophyllum nodosum é a mais estudada para aplicação nas plantas e vem se tornando um tema cada vez mais frequente entre os produtores. A espécie é natural do hemisfério norte, das águas frias da Noruega, Finlândia, Canadá, apresentando diversas estratégias de sobrevivência, em função do ambiente em que vivem, sendo expostas ao congelamento e à desidratação em períodos de maré baixa e total imersão em água salgada na maré alta.

Foto: Shutterstock

Funções

As substâncias húmicas são os maiores constituintes da matéria orgânica do solo. Apresentam estrutura química complexa, o que dificulta a ação dos microrganismos para sua decomposição.

Por isso, sua alta estabilidade favorece uma ação duradoura no solo, melhorando suas características físicas, químicas e biológicas, garantindo melhores condições para o desenvolvimento das plantas.

Quando solubilizadas, podem também apresentar efeitos fisiológicos, como a capacidade de melhorar a absorção de nutrientes pelo sistema radicular, otimizar e potencializar o efeito da auxina existente dentro e fora da planta, além de atuar na respiração celular, na fotossíntese, na síntese de proteínas e enzimas.

Os aminoácidos são considerados essenciais ao metabolismo das plantas e fundamentais no processo de síntese proteica. São também compostos intermediários dos hormônios vegetais endógenos, oferecem às plantas maior resistência ao estresse hídrico e à alta temperatura e maior tolerância ao ataque de doenças e pragas.

Além disso, tem também papel importante na ação complexante de nutrientes e agroquímicos, melhorando o aproveitamento dos elementos pelas plantas.

Em função das condições ambientais a que é exposto, A. nodosum possui inúmeras estratégias de defesa, sintetizando diferentes substâncias antioxidantes e precursores hormonais, que podem ser explorados e aplicados sobre as plantas para melhorar sua resistência aos diferentes fatores bióticos e abióticos a que são submetidas, além de melhorarem o enraizamento e estimularem o desenvolvimento das plantas.

Atuação

O uso de bioestimulantes vem sendo cada vez mais aceito pelos produtores, com o objetivo de obter maiores rendimentos devido aos resultados constatados em diferentes espécies de valor econômico, além de ser uma prática sustentável e sem agressão ao meio ambiente.

Os produtos, dependendo de sua forma de apresentação e função, podem ser utilizados via tratamento de sementes, direcionados ao solo (sobre a semente, sulco ou em área total), via irrigação ou foliar. Seu uso não exclui o uso da adubação química, mas potencializa o efeito da absorção e translocação dos nutrientes nas plantas e uma melhor distribuição ao solo.

Dentre os inúmeros benefícios dos bioestimulantes, podemos destacar o auxílio no crescimento e no desenvolvimento das plantas – atuam na síntese e estímulo das enzimas H+ATPases na membrana celular, favorecendo o enraizamento e a absorção de nutrientes; estimulam a germinação de sementes; atuam na biossíntese de clorofila e carotenoides, promovem o equilíbrio da rizosfera e da microbiota do solo, estimulam a produção e ao equilíbrio dos hormônios vegetais e, com isso, aceleram o crescimento das plantas.

As substâncias húmicas direcionadas ao solo também ajudam na manutenção da fertilidade, na liberação de P adsorvido (o incremento de fósforo solúvel se dá pela complexação de Fe+2 e Al+3 em solos ácidos e do Ca+2 em solos alcalinos), no aumento da CTC e na saturação de bases, auxiliam na formação de agregados, diminuindo a compactação em solos argilosos, melhorando a infiltração de água, a friabilidade e plasticidade, promovendo uma maior resistência à erosão devido às suas partículas coloidais, que são capazes de formar uma emulsão em contato com a água.

Foto: Shutterstock

Aumentam o poder tampão dos solos, reduzindo as variações de pH do meio. Além disso, auxiliam na descontaminação de solos com metais tóxicos e aumentam a capacidade de retenção de água, característica fundamental no cenário atual, onde são constantes os relatos de falta de água e períodos mais prolongados de seca.

Embora essas substâncias não tenham relação direta contra pragas e doenças, em função de todo o equilíbrio que proporcionam às plantas e ao solo, além da formação de compostos indutores de resistência, as plantas se tornam menos suscetíveis a esses agentes, superando com mais eficiência as adversidades.

 Qual usar? Sinergismo

O potencial de uso de bioestimulantes na conservação e manejo dos ecossistemas, com menores impactos ambientais, é vasto e promissor, incluindo, principalmente, a promoção do crescimento e desenvolvimento de plantas, o aumento da produção de flores, frutos e sementes, o aumento da eficiência da adubação mineral e a possibilidade de uso em conjunto com formulações de inoculantes e biofertilizantes.

Apesar de toda a discussão sobre o conceito e uso desses produtos, há uma grande variedade de produtos comerciais disponíveis e, muitas vezes, há dúvidas sobre como, quando e qual usar.

Ainda há muito o que compreender sobre a utilização desses produtos e sua interação com moléculas exógenas e microrganismos, porém, sabe-se que a interação entre os diferentes tipos de bioestimulantes é benéfica às plantas, uma vez que há ativação de diferentes rotas metabólicas e produção de diferentes compostos, com um único objetivo: crescimento e desenvolvimento vegetal.

O uso de substâncias húmicas, atuando em conjunto com os aminoácidos e extratos vegetais, se torna um mecanismo surpreendente no que se refere à desintoxicação das plantas aos mais variados tipos de estresses e ao processo de enraizamento.

Além dos efeitos diretos na morfologia e na fisiologia radicular, os bioestimulantes também atuam indiretamente, alterando a química e a dinâmica microbiana da rizosfera, por estimularem a exsudação de ácidos orgânicos e de açúcares pelas raízes. Ao alterarem o ambiente rizosférico, interferem nas interações solo-microbiota-planta, principalmente na disponibilidade e na assimilação de nutrientes.

Direto ao ponto

Vale lembrar sempre que os bioestimulantes atuam em diferentes níveis de organização do corpo da planta e em várias etapas envolvidas na fisiologia vegetal, como expressão de genes, presença de organelas, metabolismo primário, metabolismo secundário, crescimento.

Enquanto uma substância ativa as rotas metabólicas, outras complementam o processo, fornecendo a energia necessária e estruturando as enzimas para a execução da atividade. Dessa forma, todo o sistema atua em equilíbrio e de forma eficiente, potencializando ainda mais o desempenho a campo, com sistema radicular mais estruturado, estande mais homogêneo, melhor arquitetura de plantas e maior taxa fotossintética.

Novos métodos para avaliação da eficácia dos bioestimulantes também devem ser desenvolvidos, o que irá ajudar, principalmente, na criação de estratégias/recomendações de uso desses produtos. Esse conhecimento também será fundamental para facilitar os processos regulatórios, respeitando as características únicas e individuais dos bioestimulantes.

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