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Ácidos húmicos: o que eles têm a oferecer para o milho?

Créditos: Shutterstock

Fabrício Custódio de Moura Gonçalves
Doutor e professor de Agronomia – Universidade Estadual do Piauí (UESPI)
fabriciocustodiodemouragoncalves@urc.uespi.br
Elizabeth Orika Ono
elizabeth.o.ono@unesp.br
João Domingos Rodrigues
joao.domingos@unesp.br
Doutores e professores de Fisiologia Vegetal – Unesp

O milho é a cultura mais frequente nas propriedades rurais do Brasil e com maior produção na segunda safra. Todavia, é nesse período que significativas adversidades abióticas podem acometer as lavouras, como por exemplo, a baixa disponibilidade de água no solo.

Como consequências à falta de água no solo, verificam-se baixa solubilidade e absorção de nutrientes que, por sua vez, causam reduções do crescimento de raiz e parte aérea das plantas, diminuição da taxa fotossintética e impacto aos componentes da produção da cultura, como o número e tamanho de espiga, número de fileiras, massa e número de grãos por espiga.

Nessas condições, a aplicação dos ácidos húmicos (AH) pode resultar em grandes benefícios para o sistema solo-planta, proporcionando aumento da biomassa e do tamanho de raízes e também o crescimento de pelos radiculares e raízes finas, o que permite à planta de milho explorar melhor o perfil do solo e também ter condições mais favoráveis para o milho sobreviver em caso de déficit hídrico.

Ação no solo

A presença de AH no solo influencia positivamente nos atributos químicos, físicos e microbiológicos e, consequentemente, age direta e indiretamente no aumento da eficiência do metabolismo bioquímico (fotossíntese) e absorção de nutrientes pelas plantas.

Ainda, os AH apresentam potencial de ação como biorreguladores e bioativadores, produzindo precursores de hormônios vegetais, alterando o transporte iônico e atuando em enzimas metabólicas capazes de afetar o metabolismo secundário, tornando a planta menos vulnerável a fatores, inclusive bióticos, como ataque de pragas e doenças, ou abióticos, como temperatura, umidade e aplicação de agrotóxicos.

Os AH são compostos de cor escura e poliméricos, cuja formação se dá pela associação entre macromoléculas heterogêneas de grupos polifuncionais. Sua composição pode variar em função de sua origem, ou seja, animal, vegetal e microbiológica.

A referida substância apresenta-se como precipitados escuros, solúveis em ácidos minerais e solventes orgânicos, possuem elevado peso molecular e capacidade de troca catiônica. Na agricultura, muitas vezes os produtos empregados apresentam-se em solução.

Benefícios para o milho

Créditos: Shutterstock

Os ácidos húmicos exercem influência nas propriedades químicas, físicas e biológicas do solo. Sabe-se que os ácidos húmicos beneficiam a agregação das partículas favorecendo, assim, a estrutura, porosidade, aeração, retenção de água no solo e resistência à erosão, devido às suas partículas de dimensões coloidais.

Aumentam o poder tampão dos solos, reduzindo as variações de pH do meio. Melhoram a disponibilidade de fósforo às plantas, pela complexação de Fe+2 e Al+3 em solos ácidos e do Ca+2 em solos alcalinos e também diminuem a salinização dos nutrientes no solo, como o KCl. Como são materiais de alta CTC, promovem acréscimo das cargas no solo, proporcionando maior retenção de íons (e, então, menores perdas de nutrientes).

Assim, os ácidos húmicos interferem diretamente na qualidade física do solo, por promoverem uma aproximação das partículas e, consequentemente, sua união, gerando dessa forma uma maior agregação dos solos.

O processo de agregação dos solos influi diretamente sobre outras características como, por exemplo, a densidade, porosidade, aeração, capacidade de retenção e infiltração de água no solo.

Sua capacidade de reter água é 20 vezes maior que a dos solos sem matéria orgânica, o que justifica a maior capacidade de plantas sobreviverem melhor em solos com grande quantidade de substâncias húmicas durante o período de déficit hídrico.

Os ácidos húmicos também favorecem a vida microbiológica dos solos. Em paralelo, agem diretamente sobre as plantas, ativando o transporte de íons, a atividade respiratória e promovendo aumento do conteúdo de clorofila.

Como utilizar?

Os ácidos húmicos, maiores componentes da matéria orgânica e utilizados principalmente na produção de fertilizantes organominerais, podem ser extraídos de diferentes matérias-primas, como resíduos de animais, lodo de esgoto e deposições geológicas de origem orgânica, como turfa.

Isto é devido ao grande número de grupos funcionais contidos em suas moléculas e sua estabilidade química. Diferentes agentes oxidantes podem ser utilizados, seguidos de extração alcalina para obtenção dos ácidos húmicos. Estes, por sua vez, podem variar muito em composição e funcionalidade, de acordo com seu material de origem.

Os produtores vão encontrar formulações diversas, como: produtos sólidos, sólidos solúveis ou líquidos. Muitas vezes, na garantia do produto está expresso o carbono orgânico. Porém, é importante que estejam incluídos os teores de ácidos húmicos, pois as fontes de carbono orgânico são muito variáveis.

Via solo ou foliar?

Na cultura do milho, os ácidos húmicos (AH) podem ser aplicados via tratamento de sementes, em sulco de semeadura, com solução aplicada sobre as sementes antes do fechamento do sulco de semeadura e poderá ser pulverizado de forma foliar durante o ciclo vegetativo da cultura.

É importante salientar que, em muitas situações, os AH são constituintes de fertilizantes elaborados associados a outros componentes, como extratos de algas e aminoácidos.

Dessa forma, é relevante ressaltar a importância de estudos prévios com relação à fonte de origem de onde serão extraídos os AH, a estrutura química a ser utilizada e testes preliminares com diferentes concentrações de resposta em plantas de milho, antes da aplicação a nível de campo e também avaliar as condições do solo para ter um melhor aproveitamento da técnica.

Respostas imediatas

Solos com alto teor de argila dificultam respostas imediatas com a aplicação de AH. Entretanto, nutrientes básicos no manejo da nutrição, bem como o uso de fertilizantes nos sulcos, podem ser agregados ao sistema de produção.

Já em solos arenosos é necessário, num primeiro momento, construir a fertilidade de outra forma, além de eliminar a compactação e valorizar a melhoria dos atributos físicos e químicos e, assim, após esse manejo inserir a adubação com essas substâncias.

A aplicação de AH no cultivo de milho impacta principalmente o crescimento do sistema radicular, promovendo o aumento de biomassa e intensificando o volume de raízes laterais secundárias. 

Créditos: Shutterstock

Trabalhos científicos evidenciam que a presença de ácidos húmicos no solo e foliar estimula a síntese de auxina, promovendo a elongação das células e estimulando o crescimento da planta. Na cultura do milho, a indução de raízes laterais, devido à aplicação de AH, resulta em uma maior área de contato e de absorção de nutrientes e água.

Em relação à aplicação de AH foliar, deve-se considerar e contar com pulverizadores e equipamentos com manutenção adequada, bicos, barras e tanques bem lavados, utilizar pulverizadores específicos para fertilizantes, dosagens adequadas, bem como contar com um bom treinamento do operador e acompanhamento de perto do técnico e/ou produtor.

Pesquisas

Experimentos realizados em Capela do Alto (SP), em área de cultivo de milho safrinha, evidenciaram que a aplicação de solução contendo AH foi responsável por um aumento na produtividade em aproximadamente 11 sacas por hectare cultivado.

Além disso, verificou-se que sua aplicação resultou em um aumento no número médio de espigas, na altura média de plantas, no diâmetro do colmo e na massa fresca de parte aérea.

Em pesquisas com a cultura do milho, a aplicação de AH promoveu a indução de raízes laterais (Zandonadi et al 2007) e também aumentou a produtividade (Domingos et al., 2015).

Baldotto e Baldotto (2014), em estudo sobre a resposta à aplicação de AH na ausência e na presença de calagem e adubação mineral, observaram efeitos significativos dos ácidos via pulverização foliar. Houve incrementos médios de 20% sobre a produtividade no sistema convencional, sinalizando que o uso dessas substâncias representa uma oportunidade tecnológica para o cultivo do milho.

Teixeira e Herrera (2015) concluíram que formulados com substâncias húmicas proporcionaram benefícios à cultura do milho, como na germinação, desenvolvimento inicial das plantas e aumento da produção de vagens, grãos e espiga.

Sob outro enfoque, estudos evidenciaram que, na cultura do milho, a aplicação de AH aumenta a absorção de nitrato (NO3–) por suas raízes, resultando em aumento de produtividade.

Custo-benefício

Todos os benefícios e resultados observados em função da aplicação dos ácidos húmicos (AH) são potencializados dentro de um manejo integrado das culturas que visa a obtenção de altas produtividade e também a construção da fertilidade do solo em um processo equilibrado e continuado.

De certo que a utilização dos AH não só beneficia o crescimento e desenvolvimento vegetal, mas também melhora as qualidades biológicas, físicas e químicas do solo.

Dependendo da fonte de matéria orgânica, o rendimento de extração dos AH é baixo. Estão disponíveis frascos de ácidos húmicos no estado sólido de 50 gramas, por exemplo, que variam de R$ 200,00 a R$ 1.200,00, dependendo do quão purificado é o material. Porém, técnicas novas de extração e obtenção dos AH vêm sendo testadas atualmente a fim de minimizar os custos para o produtor.

Além dos benefícios já identificados dos AH, representam ainda uma solução para reduzir o uso de insumos químicos, até mesmo orgânicos ou agroecológicos, já que algumas culturas possuem elevada exigência nutricional, como o milho, por exemplo, que pode demandar de 4,0 até 40 toneladas de composto orgânico por hectare para atingir produtividade satisfatória.

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