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quinta-feira, julho 18, 2024
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Alface de verão enfrenta aumento de incidência de bactérias

Crédito: Cristiane Bezerra

Alasse Oliveira da Silva
Engenheiro agrônomo e mestrando em Fitotecnia – ESALQ/USP
alasse.oliveira77@usp.br
Walleska Silva Torsian
Engenheira agrônoma e doutoranda em Fitotecnia – ESALQ/USP
walleskatorsian@usp.br
Liliane Marques de Sousa
Engenheira agrônoma e mestranda em Fitotecnia – Universidade Federal de Viçosa (UFV)
liliane.engenheira007@gmail.com

A alface (Lactuca sativa L.) é a hortaliça folhosa mais consumida e produzida no Brasil e no mundo e bastante presente na mesa dos consumidores brasileiros. Com a importância da hidroponia, ganhou mais notoriedade devido ao aumento da disponibilidade de uma hortaliça de boa qualidade em todas as estações do ano.

Como características de uma boa qualidade de alface, as plantas devem ser bem formadas, com excelentes folhagens, além da ausência de danos físicos devido ao ataque de insetos ou lesões provocadas por doenças. E, para isso, o cultivo de alface necessita de manejo fitossanitário constante visando a prevenção contra as doenças bacterianas, fúngicas e por vírus.

Ataque

Essas doenças manifestam-se principalmente no verão, momento em que a temperatura está elevada e com alta umidade relativa do ar, quando comparada às demais estações do ano. Nesse período, inúmeras bactérias podem se disseminar e colonizar a área de cultivo, com destaque para a Pseudomonas, Xanthomonas e Erwinia, que juntas ou de forma isolada podem comprometer toda a produção, seja em campo ou em sistema protegido.

A cultura da alface está sujeita ao ataque de vários tipos de pragas e doenças. E por muitas vezes o produtor deve abrir mão do controle químico, uma vez que, embora garanta a boa aparência do produto, pode acumular resíduos nas folhas, que é a parte consumida.

O verão apresenta temperaturas elevadas no decorrer do dia e aumento dos índices pluviométricos, resultando em mais chuvas que nas outras estações climáticas. Nesse momento, em muitas regiões são relatadas mudanças bruscas no tempo, sendo vistas chuvas constantes ou de rápida duração, essa última conhecida como chuvas de verão ou convectivas.

Desta forma, com o aumento das temperaturas médias e dos volumes de precipitação, as condições se tornam favoráveis para o surgimento de doenças bacterianas no cultivo de alface.

Crédito: Luize Hess

A causa

Doenças de plantas são anomalias provocadas, na maioria dos casos, por microrganismos, como bactérias, fungos, nematoides e vírus. Devido às hortaliças serem cultivadas muitas vezes intensamente e em áreas pequenas, a incidência de doenças pode ser alta e, consequentemente, prejudicar a produção.

Os plantios mais velhos acabam hospedando patógenos que se disseminam para os plantios mais novos. Assim, como em qualquer cultura, o plantio da alface oferece riscos ao produtor quando o assunto é doença.

O hospedeiro, o ambiente e o patógeno

Para cada espécie existe uma série de condições ambientais favoráveis para o seu pleno desenvolvimento. Então, quando uma ou mais condições se tornam desfavoráveis, o desenvolvimento da planta fica prejudicado e ela mesma começa a expressar características anormais em relação às outras plantas cultivadas no ambiente habitual.

Sendo assim, doenças de plantas são a alteração no desenvolvimento fisiológico ou na estrutura das mesmas, podendo ser manifestadas com características denominadas sintomas, onde se usa o termo sinal para designar a manifestação externa do agente causal da doença.   

A maioria dos agentes causais de doenças são parasitas, ou seja, se alimentam totalmente do organismo vivo, no caso, as plantas. E tem também os saprófitas, que se alimentam da matéria orgânica morta.

O agente causal pode ser chamado de patógeno, que indica o que provoca a enfermidade na planta. Parasita e patógeno não são a mesma coisa – existem parasitas e saprófitas que não causam doenças; o patógeno causa doença.

Danos

Os patógenos retiram dos seus hospedeiros, aqui representados pelas plantas, nutrientes para o seu metabolismo. Esses nutrientes estão no interior das células vegetais, onde os patógenos devem romper barreiras externas para colonizar os tecidos das plantas.

Os mecanismos de ataque dos patógenos às plantas ocorrem por vias de penetração, ou seja, por via direta (força mecânica), aberturas naturais e ferimentos. As bactérias são incapazes de penetrar diretamente, necessitam de aberturas nas plantas causadas por ferimentos.

Doenças bacterianas

Crédito: Francisco Aliomar

As bactérias são microrganismos classificados como unicelulares que estão presentes em toda a natureza. As doenças bacterianas são um dos principais problemas fitossanitários, podendo causar perdas significativas devido à destruição parcial ou completa da planta ou da parte comercializável, diminuindo o valor econômico da produção.

As bactérias podem ser facilmente disseminadas pela água ou pelo ar, e também pelo uso de maquinário infectados e por insetos e animais. 

As doenças da parte aérea afetam diretamente o órgão comercializado, ou seja, as folhas da alface. Essas doenças não são toleráveis e devem ser totalmente e cuidadosamente controladas.

Em grande parte, os propágulos dos patógenos dessas doenças são oriundos de propriedades vizinhas, onde o produtor não faz o devido controle fitossanitário. Também, as doenças podem estar presentes em sementes e/ou mudas contaminadas; nesse caso, o uso de mudas sadias é essencial para uma produção de boa qualidade.

Prevenção

Como controle preventivo para doenças de parte aérea, podemos citar o uso de sementes e de mudas de boa qualidade de empresas certificadas; a correta limpeza do local de produção, eliminando plantas daninhas e restos culturais; e a restrição de visitantes na área de produção.

As doenças de raiz e caule ocorrem com menor incidência, mas os cuidados devem ser os mesmos. A doença inutiliza completamente e comercialmente a parte aérea e compromete a área de cultivo para os plantios posteriores.

A rotação de culturas é de extrema importância, o que na maioria das vezes não é feito pelos produtores, principalmente pelos pequenos.

Doenças bacterianas

A mancha-bacteriana (Xanthomonas campestris) está presente nas regiões sul e sudeste e também no Distrito Federal, e é considerada uma doença de importância secundária, mas isso não significa que ela não exige cuidados. Em condições de umidade relativa alta, acima de 90%, a doença se dissemina rapidamente, causando perdas em toda a produção.

A penetração da bactéria ocorre por aberturas naturais, seja pelos estômatos ou pelos hidatódios, o que pode provocar pequenas manchas angulares “encharcadas”, observadas nas folhas mais baixas e totalmente expandidas.

Com o avanço da doença, as manchas escurecem e ficam delimitadas pelas nervuras. A doença, ao iniciar pelas margens da folha, deixa lesões que ficam com o formato da letra “V”. A bactéria também pode infectar o caule, causando podridão e, consequentemente, a morte das plantas. 

Crédito: Marina Guimarães

Sementes contaminadas são as principais fontes de contaminação e disseminação da doença, que se desenvolve em regiões de clima quente, onde as temperaturas estão entre 26 a 28 °C, principalmente após longos períodos de chuva ou de irrigação.

A bactéria também é capaz de sobreviver nos restos culturais de plantas infectadas que não foram removidas do campo e, também, saprofiticamente nas plantas daninhas.

O que fazer?

As medidas de controle são utilizar sementes de boa procedência e qualidade; realizar o tratamento de sementes com hipoclorito de sódio se existir suspeita de contaminação; plantio em terrenos drenados e evitar o excesso de irrigação; além do uso de fungicidas cúpricos, apenas se tiver registro para a alface.

Nesse caso, os princípios ativos são o oxicloreto de cobre e mancozeb; adubar corretamente, sem excesso de nitrogênio; rotação de culturas e eliminação de restos culturais.

Crestamento bacteriano

O crestamento bacteriano (Pseudomonas cichorii) está presente na região sul e em São Paulo. Ocorre concomitantemente ao ataque de mancha-bacteriana, causando lesões e podridões, também pelo excesso de umidade.

Essas bactérias penetram por ferimentos causados por insetos ou pelo homem durante a realização dos tratos culturais. Solos infestados e restos culturais também são fontes de inóculo.

Os sintomas começam nas folhas internas e novas da alface, com pequenas manchas necróticas e brilhantes ao longo das nervuras. Apresentam coalescência de lesões e os bordos ficam queimados e podres.

Esses sintomas costumam ser confundidos com danos de geadas. Essa doença também está presente em outras espécies, como couve, couve-flor, chicória e salsão, o que induz a dizer que a bactéria sobrevive no solo e em restos culturais de alface infectados.

O principal responsável pelo desenvolvimento da doença é a umidade e também temperaturas entre 20 e 25°C. As medidas de controle são evitar o excesso de irrigação; fazer rotação de culturas com gramíneas; e, periodicamente, pulverizar com fungicidas cúpricos (oxicloreto de cobre e mancozeb).

Podridão-mole

Ocorre principalmente no campo e na pós-colheita. A doença acontece no verão – a temperatura para o crescimento do patógeno é de aproximadamente 30°C, com alta umidade relativa no solo.

A bactéria não é transmitida pela semente, mas é capaz de sobreviver no solo. Mesmo sem a presença de plantas hospedeiras, sobrevive nos maquinários utilizados para os tratos culturais e nos ferimentos das plantas. O principal sintoma é a murcha e a morte da planta, que ao ser arrancada do solo, mostra a extensa necrose na região do caule, com odor desagradável.

As principais medidas de controle são: plantios em solos leves, evitando o acúmulo de água; irrigação sem excesso; plantio em espaçamento adequado, permitindo a aeração das plantas; rotação de cultura, visando diminuir os patógenos no solo; evitar ferimentos nas plantas, causados pelo manejo inadequado; e adubar corretamente.

Bactericidas à base de cobre

Crédito: Agroflex

O cobre é bastante utilizado no Brasil como fungicida protetor contra fungos e bactérias. Entre os vários grupos de cúpricos existentes e disponíveis no mercado, o oxicloreto de cobre, o óxido cuproso e o sulfato de cobre são os principais e mais utilizados na agricultura.

Existem dois tipos, o de contato e o sistêmico. O primeiro é aplicado nas folhas, dessa forma, se o esporo de uma bactéria entra em contato com as folhas de alface, o cobre atua evitando sua disseminação na lavoura, enquanto o segundo penetra nos tecidos internos e se desloca de um tecido a outro, possibilitando o combate de bactérias que estejam no sistema radicular e de outros tecidos das plantas.

Como funciona

Os bactericidas à base de cobre são aliados importantes, pois podem atuar como um agente de indução de resistência, por meio do acionamento dos mecanismos de defesa das plantas contra inúmeros microrganismos que antes estavam em estado latente.

Além disso, os produtos cúpricos são capazes de elevar a eficácia do controle químico que já é realizado e diminuir de forma significativa a resistência de bactérias e fungos aos defensivos agrícolas, assim como garantir uma adequada nutrição das plantas.

Benefícios

Os principais benefícios são controle de doenças, fornecimento do elemento cobre e aumento da produtividade, por ser essencial às culturas. Pesquisas relatam resultados positivos em campo: áreas tratadas somente com produtos sem cobre alcançaram 56% em média de controle de doenças em geral.

Já nas áreas tratadas com agroquímicos associados com fertilizante foliar à base de cobre, este índice atingiu 75%. Na produtividade, o aumento foi expressivo nas áreas tratadas com fungicidas associados com fertilizantes cúpricos em comparação às áreas tratadas somente com agroquímicos.

Desafios

O controle de doenças bacterianas é um desafio para os produtores de alface, visto que os custos são elevados, e os sintomas são observados quando a doença já está instalada na área. Por isso, recomenda-se que os produtores adotem o manejo integrado de doenças a fim de diminuir ou prevenir o ataque de doenças nos cultivos, bem como a propagação.

Entretanto, alguns produtos, como os bactericidas cúpricos, são recomendados, pois elevam a eficácia do controle químico e mantêm as plantas nutridas e saudáveis, consequentemente, mantêm a produção.

Para a máxima obtenção da eficácia dos produtos em campo, os olericultores devem considerar alguns fatores climáticos e dos produtos, como época de aplicação (horários do dia menos quentes e com ventos leves), a formulação química para facilitar a mistura e aplicação do produto, presença de substâncias que potencializam o efeito do produto e o tamanho de partículas, pois o menor tamanho de partícula consegue maior superfície de contato, sendo mais preciso e eficiente na atuação (acerta no alvo).

Atenção!

Recomenda-se sempre que o uso desses produtos químicos seja acompanhado de um técnico ou engenheiro agrônomo visando evitar perdas de produtos, garantir alta produtividade e qualidade de produção, além de mais segurança.

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