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Cafeicultura montanhosa: como facilitar o manejo dos tratos culturais

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José Braz Matiello
Engenheiro agrônomo – Fundação Procafé
jb.matiello@gmail.com

Na cafeicultura de montanha, cultivada em terrenos com declividades na faixa de 30 – 50% e até mais, para facilitar os tratos nas lavouras, pode-se atuar em três níveis de adaptação – adaptar o terreno, o maquinário e as lavouras e seus tratos.

Adaptação das lavouras

As áreas de cafezais de montanha, como o nome indica, estão sobre terrenos de topografia inclinada, onde não andam tratores. Assim, a primeira condição, para facilitar os tratos dos cafezais, é o cultivo mais intensivo, com o uso de espaçamentos adensados, combinado com a manutenção dos cafeeiros mais novos, baixos e bem produtivos, o que favorece e barateia os tratos e a colheita.

Nessa condição, podem ser usados vários níveis de adensamento (semi, adensado e superadensado), aplicando ciclos mais curtos ou mais longos de poda, com isso mantendo as plantas renovadas e baixas ou com ciclos de alta produção num ano e zerada no outro, por meio de esqueletamento.

Sistemas

Na combinação do uso dos diferentes sistemas de plantio com seu manejo de poda, pode-se usar três alternativas, sendo:

– Uso de espaçamentos adensados (1,7 – 2,0 x 0,5 m) conduzindo por 2 – 4 safras normalmente, até início de fechamento, daí podando, por esqueletamento, a cada duas safras, no sistema safra zero, ou recepando, a cada 3 – 4 safras.

– Uso de derrama progressiva, em sistema adensado, retirando a saia e ramos sombreados, anualmente, a partir da 2ª – 3ª safras, mantendo a produção restrita à parte superior do cafeeiro, formando um salão abaixo, com isso facilitando a colheita, com derriçadeira costal motorizada, de baixo para cima. Isto conduzido por um determinado número de safras, até quando as plantas apresentarem boa produtividade, depois recepando e começando um novo ciclo.

– Uso de espaçamentos superadensados, como 1,5 m x 0,5 m e condução por um pequeno número de safras, recepando em seguida e começando novo ciclo. Neste caso, a colheita da última safra pode ser feita com a planta já cortada, sendo mais adequado bater a planta sobre pano, para retirar os frutos, cerca de 20 dias pós-corte.

Na hora certa

A definição de quando cortar vai depender da facilidade e da previsão de produtividade. Cafeeiros de boa variedade, plantados cedo e bem conduzidos, podem, em espaçamento bem fechado, produzir cerca de 150 sc/ha em sua primeira safra. Muitos planejam até cortar após esta primeira safra, mas o ideal, economicamente, deve estar entre cada 2 – 3 safras. Nesse sistema a meta é ter produtividade média, no período curto de safras, de cerca de 100 sc/ha/ano.

– O sistema safra zero é muito adequado para as montanhas, podendo-se, até usar um espaçamento semiadensado, como 2,5 a 3,0 m na rua, para maior facilidade de manejo. Nele pode-se usar a colheita de ramos, após o esqueletamento. Pode-se, ainda, usar a derriçadeira ou mesmo a colheita com varas sem problemas, visto que, em seguida, as plantas vão mesmo ter seus ramos cortados, para um ciclo zero.

Medidas auxiliares são recomendadas para facilitar os tratos nas lavouras de montanha, sendo:

– Usar variedades de porte baixo e resistentes a doenças/pragas e espaçamentos com adensamento.

– Usar insumos, de preferência, via solo, pois as pulverizações são dificultadas pela topografia e pelo adensamento.

– No controle do mato, dar prioridade para o uso de herbicidas, com menor gasto de mão de obra.

– Locar carreadores em nível a menores distâncias (40-60 m), facilitando a chegada de insumos, retirada do café e pulverizações com canhão.

– Adaptação do terreno para a entrada de máquinas.

Adaptação

A adaptação é feita por meio de terraceamento nas ruas, para facilitar os tratos e a colheita, à semelhança do que ocorre em culturas perenes na Europa (videira, oliveira). Nas ruas são abertos micro terraços, com 1,3 – 1,5 m de largura, formando um caminho mais plano nas ruas, como se fosse uma estrada estreita entre duas linhas de cafeeiros, por ali podendo transitar tratores estreitos com equipamentos para os tratos.

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A prática de microterracear, apesar de ser introduzida só recentemente, tem despertado grande interesse nos cafeicultores, pela facilidade que oferece. Por isso, sua adoção vem crescendo e, paralelamente, vem sendo aperfeiçoada, no sentido de torná-la mais econômica.

Atualmente já se tem disponíveis 5 sistemas ou modos de construir os micro-terraços em cafezais.

1 – O método inicial utiliza tratores traçados, operando de marcha-a-ré, com lâmina traseira, apresentando a desvantagem de custo elevado e de risco operacional, estimando-se um rendimento de 15-40 h de serviço por ha, ou o equivalente a cerca de R$ 1.100,00 a R$ 3.000,00 por ha.

2 – Experiências também foram realizadas com máquina tipo BobCat de esteira, com concha escavadeira e lâmina dianteira, para acerto do terraço. Neste caso, podem ser abertos cerca de 1,5 m de terraço por minuto, ou o equivalente a cerca de 35 – 40 h/ha, ao custo de cerca de R$ 3.500,00 – R$ 5.000,00/ha.

3 – Trabalho com pequenos tratores de esteira, com lâmina dianteira, especialmente tratores estreitos importados, estes fazendo um hectare em 15 – 30 h, ou cerca de R$ 2.500 –  R$ 3.500,00/ha.

4  -Viabilidade de uso de tração animal na abertura dos micro-terraços, sistema mais econômico e acessível a pequenos produtores, trabalhando com arado no revolvimento da terra e pequena lâmina, adaptada, para retirar a terra e plainar o terraço. O rendimento observado é de quatro dias de trabalho por hectare, com custo aproximado de R$ 720,00/ha.

5 – Abertura manual de micro-terraços, com trabalhadores munidos de enxadão e enxadas. Em experiência realizada em 8,0 ha, foram gastos 25 h/ha, ou cerca de R$ 2.000,00/ha.

Na evolução do micro-terraceamento, foram verificadas melhorias com:

a) O emprego de tratores de esteira, mais estreitos, na abertura, o que dá bom rendimento ao trabalho, existindo, já, empresas prestadoras deste serviço.

b) A viabilidade do terraceamento com tração animal, em pequenas propriedades.

c) O uso de trator andando nos terraços, operando colhedeiras de galhos esqueletados. Para isso, o terraceamento pode ser feito em linhas duplas ou a cada 3 – 4 ruas e;

d) O desenvolvimento de máquinas colhedoras adaptadas para terraços.

Para um bom trabalho, possibilitando a abertura de terraços com 1,30 – 1,50 m de largura, indica-se usar espaçamentos nas ruas das lavouras na base de 3,0 a 3,5 m, com o serviço sendo facilitado após podas.

Tratos mecanizados

Nos terraços, abertos na rua do cafezal, podem transitar os tratores, mais estreitos, para efetuar os tratos mecanizados. Uma derriçadeira tratorizada também foi adaptada para trabalhar na derriça e recolhimento do café, com sistema de deslocamento lateral e em altura do rolo derriçador, de forma a se ajustar na parte do barranco do terraço.

Uma esteira recolhe de 60 – 70% dos frutos derriçados, dirigindo-os para um bag traseiro. A máquina, dependendo da carga dos cafeeiros, pode derriçar mais de 200 medidas (de 60 L cada) por dia.

O café que cai no chão pode ser varrido e recolhido também mecanicamente. Com essa máquina derriçadora foi colhido 1,0 ha de lavoura em 12 h, enquanto a colheita manual, na mesma área, gastou 35 homens/dia.

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Também foi demonstrada a viabilidade do uso de colheitadeiras mecânicas normais, maiores, tipo automotriz ou de arrasto. Para isso, algumas fábricas já vêm adaptando suas máquinas.

A primeira providência é a substituição dos pistões da suspensão das duas rodas, com a retirada dos normais, de 60 cm, colocando pistões de alcance de 1,20 m. Também, no cabeçalho da máquina deve-se ter um pistão, para levantar a frente da máquina, sendo aconselhável, ainda, fazer um rabicho de trator mais elevado, para levantar mais a frente da máquina, evitando que pegue no barranco.

Por fim, deve-se observar a largura da máquina, pois se forem muito estreitas não abarcam bem o cafeeiro, quando em ruas mais largas.

Foi feita uma avaliação do trabalho de microterraceamento e manejo de tratos em fazendas que adotaram o sistema em maior escala. Cita-se o exemplo das Fazendas Sertãozinho, em Poços de Caldas e Botelhos, no Sul de Minas e em área vizinha, no município de Santo Antônio da Grama (SP), onde o trabalho de adaptação vem sendo realizado desde 2014, já tendo atingido cerca de 250 ha de lavouras no sistema.

O desenvolvimento e aplicação dessa tecnologia tem buscado o aperfeiçoamento de técnicas usadas no terraceamento e na adaptação dos equipamentos para, em seguida, mecanizar as lavouras de café.

Com base nos resultados obtidos nos últimos cinco anos no trabalho, verificou-se que é possível construir os terraços com três tipos de equipamentos, sendo o trator de esteira e a mini-retroescavadeira em locais mais acidentados e um trator com lâmina traseira acoplada este em locais menos declivosos.

O terraceamento tem sido feito, nas fazendas, em áreas de lavouras já instaladas e em áreas de substituição das lavouras velhas, com o trabalho de sistematização do terreno, com a abertura de terraços, realizado antes do novo plantio.

Rendimento

O custo obtido no terraceamento varia com a declividade e com a presença de obstáculos, como pedras, verificando-se gastos médios na faixa de R$ 2.500,00 a R$ 3.500,00/ha, existindo algumas poucas áreas mais difíceis, com custo de até R$ 4.500,00 por hectare.

Uma vez abertos os terraços em novas áreas, antes do plantio do café, o equipamento, uma mini-retro-escavadeira, por meio dos encanamentos hidráulicos que possui no seu braço, pode acionar uma broca que vai perfurando as covas, com boa profundidade, no local previamente marcado, no barranco que fica entre dois terraços vizinhos.

Nesse trabalho foi verificado o rendimento de cerca de 200-350 covas abertas por hora de serviço. Em áreas onde o solo litólico aflora na superfície, após a abertura dos terraços, muitas vezes necessita-se realizar uma limpeza, retirando pedras soltas, podendo-se utilizar sua retirada dos talhões, com lâmina traseira ou com plataforma acoplada a trator.

Vantagens da mecanização

Na execução dos tratos nas lavouras terraceadas opera-se, normalmente, utilizando um trator cafeeiro comum, estreito, já tendo sido realizadas, corriqueiramente, as operações de capina mecânica, com carpideira, capina química, com aplicador de herbicida, roçada do mato e pulverização, estando em curso a adequação para a colheita mecanizada, com máquina colheitadeira adaptada para terraços.

Pode-se observar que a otimização dessas atividades, de cada operação de trato cultural, é muito grande, com a mecanização facilitada pelo terraceamento, como segue o comparativo do quadro 1, com rendimentos obtidos nas fazendas estudadas.

Verifica-se que as operações mecânicas sempre saem com vantagem, equivalendo a cerca de 10% do tempo de operação em relação à capina manual e 6,25% para a roçada. Para a operação de pulverização foliar mecânica, com tanque de 400 litros, realiza-se, na área terraceada, a aplicação de três tanques por dia, em lavouras novas, totalizando 6,0 ha/dia, em comparação com o manual, que seriam 200 litros em 1,0 ha/dia, rendimento seis vezes maior da operação mecanizada sobre os terraços.

Quadro 1 – Comparativo de operações realizadas no trato de cafezais novos, com 2 anos de idade, em áreas terraceadas nas Fazendas Sertãozinho, no agrícola 2018/19. Rendimento em horas por hectare.

OperaçõesModos de execução
ManualMecanizada
Capina605,3
Roçada432,4
Pulverização81,3

Fonte – Figueiredo, L et alli, In-Anais do 45ºCBPC, Fundação Procafé, 2019, p. 152.

Pode-se concluir que, com as adaptações no terreno e nas operações, a mecanização em lavouras de café, em áreas montanhosas, se torna economicamente viável, uma vez que investimentos iniciais serão amortizados pelo longo tempo de duração da lavoura e, em consequência, da grande economia nos tratos.

Além da facilidade na mecanização dos tratos culturais anuais, o terraceamento melhora a infiltração de água no solo, diminui a erosão e assim se torna também uma prática ambientalmente correta, conservando o solo e a água, o que, juntamente com um menor gasto operacional por área, resulta numa alternativa muito adequada para manter a cafeicultura de montanha de forma sustentável.

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