Cana transgênica – Nova opção para o controle da broca

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Autores

Rodrigo Vieira da Silva
Doutor em Fitopatologia e professor do IF Goiano – campus Morrinhos
rodrigo.silva@ifgoiano.edu.br
Brenda Ventura de Lima e Silva
Mestre em Fitopatologia e servidora do IF Goiano – campus Morrinhos
brendavlima@yahoo.com.br
Lara Nascimento Guimarães
Nathália Nascimento Guimarães
Graduandas em Agronomia – IF Goiano – campus Morrinhos A

O Brasil constitui-se no principal produtor de cana-de-açúcar do mundo, com uma produção de mais de 600 milhões de toneladas anualmente, o que poderia ser ainda maior, se não fossem os prejuízos causados pelas pragas, com destaque para a broca-da-cana, Diatrea saccharalis.

Atualmente, o controle da broca-da-cana é realizado principalmente por meio de inseticidas químicos, que são tóxicos e elevam o custo de produção. Considerando a área de aproximadamente 9,0 milhões de ha cultivados com cana no território brasileiro, estima-se que os prejuízos anuais causados pela broca possam atingir R$ 5 bilhões.

Com a incorporação de dois novos genes de resistência a uma variedade desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a lagarta da broca terá menor capacidade de suplantar esta barreira, que pode ampliar a proteção da planta contra a praga.

Esta nova opção de tecnologia certamente facilitará seu manejo por parte do agricultor, por diminuir os custos de controle de pragas e levar à diminuição do uso de inseticidas.

Broca-da-cana – Diatrea saccharalis

A D. saccharalis, mais conhecida como broca da cana-de-açúcar, é a mais importante praga da cultura, em razão de sua ampla distribuição e dos elevados prejuízos que causa. Este inseto pode atacar a cana durante todo o desenvolvimento da cultura, entretanto, a incidência é menor quando a planta é jovem e não possui entrenós formados.

O ciclo tem início na postura dos ovos da mariposa nas folhas da cana. Após quatro a nove dias da postura, as larvas recém-eclodidas passam a se alimentar do parênquima das folhas.

As lagartinhas descem pela folha penetrando no colmo, perfurando-o na região dorsal. No interior do colmo provocam a formação de galerias, permanecendo ali até a fase adulta. Após cerca de 40 dias, as lagartas com 2,2 a 2,5 cm, abrem um orifício, fechando-o com fios de seda e serragem. Nesta fase, transformam-se em mariposas, saindo pelo orifício aberto e atingindo novas plantas.

Os furos feitos por elas fragilizam a planta, que fica sujeita a ser derrubada pelo vento. Além disso, permitem o ataque de fungos causadores da podridão vermelha, doença que reduz a pureza do caldo e a qualidade do açúcar e do álcool produzidos. O ciclo completo do inseto varia de 53 a 60 dias, dependendo das condições climáticas, de modo que podem ter, ao longo do ano, de quatro a cinco gerações da praga.

Modificação genética

Entende-se por modificação genética quando do descobrimento de uma sequência de DNA no cromossomo, o qual ativará os genes chamados promotores, que promovem a expressão do gene em momento de necessidade quando inserido em um novo organismo, neste caso, a planta da cana.

Dessa maneira, a planta modificada expressa no seu fenótipo proteínas com ação inseticida, capazes de matar as pragas que venham a se alimentar dessas plantas O gene mais utilizado em transgenia é o da bactéria de solo Bacillus thuringiensis (Bt), que na cana-de-açúcar é o gene Cry1Ab. Este constitui-se em um microrganismo encontrado no solo que produz proteínas inseticidas tóxicas para alguns insetos.

Esse mecanismo de modificação genética é semelhante aos já utilizados nas culturas do milho, soja e algodão há mais de 20 anos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

CTC tem papel importante no processo

As duas cultivares de cana-de-açúcar modificadas geneticamente via transgenia são: CTC 20 Bt e CTC 9001 Bt, desenvolvidas pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Estas tiveram a sua liberação concedida pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a primeira em 2017 e a segunda em 2018.

Essa tecnologia da cana Bt é importante por ser economicamente viável e ambientalmente mais sustentável. Além disso, vale ressaltar que possibilita expandir a cultura da cana-de-açúcar em áreas onde o inseto-praga não pode ser controlado via inseticida e aumentar a produtividade de biomassa pela redução das perdas pelo ataque do inseto.

Os estudos do CTC mostraram que o gene Cry1Ab é eliminado dos derivados da cana, durante a fabricação do açúcar e do etanol, e não causa danos ao solo.

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Comparativo entre a cana convencional e a cana Bt

Vantagens: com a tecnologia Bt há resistência à broca-da-cana, economia de água e combustível. Já o etanol e açúcar são idênticos aos da cana convencional, assim como o sistema de plantio e colheita. Entretanto, a eficiência das operações com cana Bt é maior, pois com menor quantidade de injúrias a planta sofre menos dano econômico, com menor custo de produção. A cana-de-açúcar geneticamente modificada também pode resultar em maior produtividade para o agricultor em função de controlar a broca-da-cana logo no início, quando começa a se alimentar, evitando assim prejuízos maiores. Esta nova tecnologia apresenta o potencial de aumentar a participação do Brasil no mercado internacional das commodities de açúcar e etanol.

Desvantagens: vale salientar que quando um organismo é submetido a um método de controle por muito tempo pode haver a seleção de indivíduos resistentes e diminuir a eficiência de controle da broca, sendo necessário agregar outras estratégias de manejo associadas à transgenia.

Disponibilidade e comercialização

A primeira variedade transgênica de cana-de-açúcar – CTC 20 Bt, com resistência à broca, foi liberada em junho de 2017 pela CTNBio, e a segunda variedade – CTC 9001 Bt, em dezembro de 2018.

Atualmente, aproximadamente 60 usinas da região centro-sul do Brasil têm plantado aproximadamente 400 hectares da variedade CTC 20 Bt. Apesar de as duas variedades possuírem o mesmo gene de resistência, elas se diferenciam: a CTC 20 Bt é indicada para cultivos em ambientes favoráveis, com solos de boa fertilidade e com maior incidência de chuva e, geralmente, é colhida no meio da safra. Já a CTC 9001 Bt é recomendada para ambientes mais restritivos de solo e clima, sendo colhida no início da safra.