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terça-feira, abril 16, 2024
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Como vencer a resistência da traça-do-tomateiro

Para vencer a resistência da traça-do-tomateiro, é importante utilizar inseticidas adequados e adotar práticas culturais que fortaleçam as plantas, como rotação de culturas, manejo de irrigação e adubação equilibrada.

Franciely da Silva Ponce
Engenheira agrônoma e doutora em Agronomia/Horticultura – FCA/UNESP
francielyponce@gmail.com

Claudia Ap. de Lima Toledo
Engenheira agrônoma e doutoranda em Agronomia/Proteção de Plantas – FCA/UNESP
claudia.lima.toledo@gmail.com

A traça-do-tomateiro (Tuta absoluta (Meyrick) (Lepidoptera: Gelechiidae) é a principal praga do tomate na atualidade, devido às elevadas perdas causadas, ampla distribuição mundial e difícil controle.

O uso quase que exclusivo de inseticidas químicos nas lavouras de tomateiro tem dificultado o controle desta praga, devido à seleção de populações resistentes. Desta forma, é muito importante que outras táticas de controle e de manejo de resistência sejam inseridas na filosofia do manejo de pragas, buscando a convivência com a praga.

Lavoura atacada por traça-do-tomateiro
José Salazar

Prejuízos

Os danos da traça-do-tomateiro são observados primeiramente nas folhas, onde as lagartas recém-emergidas perfuram e constroem galerias, alimentando-se do conteúdo foliar (mesófilo), reduzindo a fotossíntese e, consequentemente, a produção.

Os danos podem ocorrer em brotações, prejudicando a emissão de novas folhas e flores. No caule, compromete o fluxo de água e nutrientes. Os danos às flores prejudicam o pegamento dos frutos, ou levam ao abortamento das flores.

As lagartas se alimentam também dos frutos, o que compromete a produção e a qualidade. Frutos brocados têm baixa aceitação no mercado.

Além disso, os ferimentos causados pela traça-do-tomateiro são porta de entrada para doenças e apodrecimento, além de reduzir o tempo de prateleira e comprometer o aspecto visual, tornando o controle da praga essencial para garantir a produção de frutos de boa qualidade.

Identificação da praga

O adulto de traça-do-tomateiro é um microlepidóptero com asas cinza-prateadas de 10 milímetros de envergadura. O inseto tem quatro fases de desenvolvimento: ovo, lagarta, pupa e adulto, com ciclo de vida que pode durar de 24 a 76 dias, conforme a temperatura.

Os ovos recém-colocados são amarelos translúcidos e se tornam marrons, com o desenvolvimento do embrião, fase que pode durar até sete dias. Eles são depositados normalmente na face inferior das folhas, no entanto, em infestações severas, podem ser encontrados em toda a superfície da folha, nas brotações, flores, caule, hastes e frutos.

As lagartas fazem galerias nas folhas, ficando protegidas e dificultando o controle eficiente pela aplicação de inseticidas. Elas normalmente empupam no solo, no entanto, as pupas podem ser encontradas no interior da galeria, ou mesmo aderidas a outras partes da planta. 

Alerta

O controle químico é a principal ferramenta utilizada para o manejo da traça-do-tomateiro, no entanto, o uso exclusivo tem proporcionado diversas consequências indesejadas, como supressão dos inimigos naturais que acontecem naturalmente nas áreas de cultivo, contaminação da água, solo e do produto, além da seleção de populações resistentes da praga.

Posicionar corretamente o uso de inseticidas químicos é essencial em qualquer cultivo, sendo necessário a rotação de princípios ativos para reduzir a pressão de seleção sobre as populações de insetos-praga.

No Brasil, já foram identificadas populações de traça-do-tomateiro resistentes a mais de 30 produtos comerciais, em especial as diamidas apresentam menor ação. No entanto, isso pode variar conforme o manejo empregado pelo tomaticultor. Até mesmo produtos à base de Bacillus thuringiensis têm apresentado baixa eficiência no controle da praga.

A partir do surgimento das diamidas, muitos produtores deixaram de utilizar outros princípios ativos para manejar a traça-do-tomateiro, o que fez com que aumentasse a pressão de seleção, havendo inúmeros relatos de eventos de resistência da praga a essas moléculas.

Alguns inseticidas, como Clofenapir, Espinetoran e Cartape, Espinosade e Abamectina podem apresentar certo grau de eficiência, no entanto, o uso exclusivo de inseticidas não é recomendado. 

Formas de controle

Dentre as formas de controle, podemos listar algumas das táticas do manejo integrado de pragas comuns a qualquer cultura, tais como o controle cultural, biológico, químico e comportamental.

Ü Manejo cultural: a destruição de restos culturais é essencial para reduzir a população de traça-do-tomateiro na área de cultivo. A destruição deve ser feita a partir do arranquio e queima das plantas. O produtor também deve evitar o plantio de lavouras novas próximas às antigas.

Ü Manejo comportamental: existem, no mercado, iscas de feromônio capazes de atrair os machos, reduzindo a cópula. As armadilhas de feromônio também podem ser utilizadas como ferramenta de amostragem.

Ü Controle químico: o controle químico é uma conhecida ferramenta do produtor, no entanto, deve-se atentar tanto com relação ao produto utilizado como à dosagem e rotação de princípios ativos.

Ü Controle biológico: é uma importante ferramenta do manejo de pragas e pode ser realizado com micro e macrobiológicos. Os primeiros são produtos à base de fungos e bactérias, alguns já consagrados, como Bacillus thuringiensis e Beauveria bassiana. Oferecem eficiência de controle sem afetar os inimigos naturais, no entanto, mesmo os inseticidas à base de biológicos podem proporcionar a seleção de populações resistentes, sendo necessário a rotação.

Os macrobiológicos são parasitoides e predadores que reduzem a população de pragas por meio do parasitismo e predação. O Trichogramma pretiosum é o parasitoide mais utilizado no mundo para manejar ovos de lepidópteros-praga.

No Brasil, existem várias empresas que comercializam T. pretiosum, uma microvespa que parasita ovos de traça-do-tomateiro, podendo ser utilizada em grandes áreas, entregando resultados acima de 85% de eficiência.

Formas de controle preventivo

O manejo preventivo da praga consiste na destruição de restos culturais a fim de evitar o aumento da infestação e reinfestação das áreas. Utilizam-se de armadilhas para monitoramento da presença da praga na lavoura e sinalização do momento em que os primeiros adultos surgirem na lavoura, para o posicionamento de táticas de controle.

O monitoramento pela vistoria semanal das plantas pode ser utilizado na substituição das armadilhas de feromônio, levando em consideração ovos e lagartas.

Como manejar a praga de maneira assertiva

A melhor opção de controle da traça-do-tomateiro é pelo manejo integrado de pragas, respeitando os níveis de controle e posicionamento conjunto de métodos. O controle biológico pode ser por macrobiológicos, quando são utilizados predadores e/ou parasitoides e o microbiológico, por inseticidas à base de fungo, vírus ou bactéria.

As lagartas se alimentam também dos frutos
Créditos: Franciely Ponce

O parasitoide de ovos T. pretiosum tem sido amplamente utilizado no mundo para o controle de traça-do-tomateiro por meio da liberação inundativa. Além disso, pode ser utilizado de forma conjunta com controle químico, comportamental, entre outros.

O controle biológico com T. pretiosum apresenta baixo custo, sendo indicada a liberação de 200 a 500 mil fêmeas por hectare, dependendo do número de plantas. Esta técnica proporciona o controle da praga antes que o dano ocorra e não apresenta danos ao meio ambiente, nem promove a seleção de populações resistentes da praga.

Para a utilização de forma conjunta com o controle químico, a liberação inundativa deve ser realizada, em um primeiro momento, para o controle dos ovos. A pulverização de quaisquer produtos deverá ocorrer apenas após 72 horas, tempo que o parasitoide apresenta parasitismo máximo.

No entanto, é preciso enfatizar que a liberação de T. pretiosum irá controlar os ovos presentes na área – as lagartas e adultos precisarão ser controlados por outros métodos.

O uso de microbiológicos, como o Bacillus thuringiensis, devido à similaridade com os inseticidas químicos, tem aceitação maior entre os produtores. No entanto, mesmo se tratando de inseticidas biológicos, há a necessidade de rotação de princípios ativos para evitar a seleção de indivíduos seletivos.

O produtor ainda conta com a possibilidade de utilizar armadilhas de feromônio, que capturam os machos. Este tipo de armadilha serve tanto como monitoramento dos insetos na área, auxiliando na detecção da infestação no estágio inicial, como medida de controle.

Apesar de serem capturados apenas machos, há redução do encontro para a cópula, o que diminuirá a infestação.

O manejo efetivo da praga necessita da junção de várias ferramentas, que atuarão nas várias fases dos insetos, como o preconizado no manejo integrado de pragas. Por meio da identificação, monitoramento para estabelecer os níveis de controle e mortalidade natural do agroecossistema, proporciona melhores resultados.

Importância do manejo de resistência

O manejo de resistência é importante, pois reduz os surtos de pragas, preserva a eficácia das moléculas disponíveis para o controle, diminui o custo com controle e viabiliza o cultivo. Isso porque a ocorrência de surtos de traça-do-tomateiro tem provocado o abandono de áreas de cultivo, ou mesmo inviabilizado o cultivo de tomate em diversas regiões.

Custo envolvido

Os custos relacionados à adoção do MIP para manejar a traça-do-tomateiro são baixos, se levarmos em consideração os danos causados pela praga e a dificuldade para o controle. O produtor precisará inserir ferramentas de diversificação de controle, como o uso do manejo biológico, que é um método de baixo custo, quando comparado à pulverização de inseticidas químicos.

O custo da aquisição de 200 mil vespas de T. pretiosum varia entre R$ 175,00 a R$ 250,00, havendo a necessidade de adequação da dose conforme a cultura.

As armadilhas de feromônios apresentam baixo custo, podendo ser uma importante ferramenta de monitoramento da praga, poupando horas de trabalho. Além disso, é compatível com outros métodos de controle.

Apesar de mais complexo que o controle convencional, o MIP representa uma alternativa para minimizar os prejuízos ocasionados pelas pragas, especialmente a traça-do-tomateiro.

A adoção das bases e táticas do MIP devem ser naturalizadas, sendo prática comum para reduzir o ressurgimento de pragas e a tão temida seleção de populações resistentes. Além disso, minimiza os impactos sobre o meio ambiente e os custos do manejo, uma vez que o uso exclusivo de inseticidas químicos pode elevar os custos produtivos a níveis inaceitáveis em caso de pragas de difícil controle.

A traça-do-tomateiro é a principal praga do tomate na atualidade, devido às elevadas perdas causadas, ampla distribuição mundial e difícil controle.

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