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Incêndios florestais: A realidade sobre o fogo que consome o Brasil

Autores

Fernanda Moura Fonseca LucasEngenheira florestal e mestranda pelo programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal – Universidade Federal do Paraná (UFPR)fernanda-fonseca@hotmail.com

Bruna KovalsykiEngenheira florestal e doutoranda pelo programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal – UFPRkovalsyki.b@gmail.com

Alexandre França TettoEngenheiro florestal, doutor e professor do curso de Engenharia Florestal – UFPR

Incêndio – Crédito: Shutterstock

Os incêndios florestais são uma das principais ameaças à biodiversidade de ecossistemas não dependentes do fogo. Este tipo de distúrbio pode ocorrer de forma natural ou por atos antrópicos, sendo o último caso relacionado principalmente a atividades de uso e ocupação do solo.

Além das perdas ecológicas, a queima da biomassa proveniente dos incêndios emite altas concentrações de carbono para a atmosfera, comprometendo a qualidade do ar e resultando em diversos riscos à saúde pública.

No Brasil, o período que se estende de julho a outubro (Figura 1) corresponde à temporada mais crítica para ocorrência de incêndios florestais, por ser também o período mais seco em diversas localidades.

Condições para o fogo

A baixa umidade relativa, temperaturas elevadas, pequena precipitação e ventos fortes resultam em uma atmosfera perfeita para a propagação do fogo. Nos nove primeiros meses de 2020, mais de 226 mil km² foram queimados em todo o País e 160.459 focos de calor foram identificados por meio do satélite de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), sendo este valor o recorde observado para o mesmo período nos últimos 10 anos (2011-2020).

Figura 1. Média mensal da área queimada (km²) no Brasil de 2010 a 2019

Fonte: INPE, 2020

Ecossistema em perigo

Os Estados do Mato Grosso, Pará e Amazonas são os responsáveis pelo maior número de focos detectados até setembro de 2020. A nível de bioma, para o mesmo período, a Amazônia concentrou 47,4% dos focos, o Cerrado 28,7%, Pantanal 11,4%, Mata Atlântica 8,7%, Caatinga 2,9% e o Pampa 0,96%.

Por ser um ecossistema sensível ao fogo, a Amazônia não apresenta uma flora com características evolutivas adaptadas à passagem de incêndios. Anualmente, manchetes no mundo relatam os desastres proporcionados pela ocorrência do fogo na região. 

O fato é que em condições normais, devido à alta umidade, o material combustível presente no interior da floresta raramente entraria em ignição. Entretanto, esta realidade tem se modificado com o passar dos anos, basicamente devido à fragmentação de habitats pela expansão agrícola e as oscilações climáticas, principalmente em anos com eventos como El Niño, que reduz a quantidade de chuvas para a região, tornando a floresta mais propícia à propagação das chamas.

Uma das causas mais graves de ignição está associada ao desmatamento, em que o fogo é utilizado ao final do processo para limpeza da área aberta, por meio da queima dos restos vegetais não explorados.

Diferentemente da Amazônia, o Cerrado e o Pantanal apresentam tipos de vegetação mais dependentes e resilientes à passagem das chamas. Apesar disso, a situação evidenciada em 2020 para o Pantanal é extremamente alarmante. Embora as espécies vegetais do bioma apresentem traços funcionais de proteção ao fogo, a intensidade dos incêndios presentes na região este ano podem alterar o seu funcionamento ecológico. Isso porque somente nos nove primeiros meses o bioma teve 32.910 km² de áreas queimadas, superior ao valor obtido em todo ano de 2019, que já se tratava de uma taxa anormal (Figura 2).

Além disso, o Pantanal apresenta alta densidade de focos de calor, uma vez que mais de 11% das detecções obtidas em todo o País neste ano foram registrados para o bioma, que é o menor em área territorial (150 mil km²), induzindo a percepção de alta severidade das queimas.

Figura 2. Quantidade de área queimada (km²) no Pantanal de 2010 a setembro de 2020.

Fonte: INPE,2020

A estiagem e o baixo nível dos rios, associado à falta de medidas preventivas, têm transformado o Pantanal em cinzas. No Estado do Mato Grosso, o Parque Estadual Encontro das Águas já teve mais de 60% da sua área queimada, sendo este o ambiente que abriga a maior concentração de onças-pintadas por quilômetro quadrado do mundo.

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Estes eventos, que assolam diversas localidades do País, têm proporcionado perdas imensuráveis à biodiversidade, bem como danos socioeconômicos. Outra situação, que também preocupa diversos especialistas, é a exposição da população à fumaça e os riscos iminentes à saúde pública, que hoje vive um grave quadro associado à pandemia da Covid-19.

Para evitar o fogo: previna-o

As principais causas de incêndios florestais no Brasil são antrópicas, como queimas para limpeza de terreno, queimas de lixo, fogueiras e balões, por exemplo. Assim, uma das formas mais simples de se evitar incêndios é por meio da eliminação das fontes de ignição, principalmente durante o período de seca (de julho a outubro).

Por vezes, durante esse período, o Governo suspende a permissão para o emprego de fogo por meio de decretos, como o Decreto Federal n° 10.424, de 15 de julho de 2020, que se estende por um prazo de 120 dias e é válido para todo o território nacional.

Quando se faz necessário a aplicação de queima controlada, essa deve ter prévia autorização do órgão competente, como demais determinações previstas pelo Decreto n° 2.661, de 8 de julho de 1998.

Um dos principais aliados para a redução das fontes de ignição são campanhas de sensibilização da população sobre o fogo, que podem ser dirigidas a comunidades específicas, população em geral ou voltadas a crianças e jovens. No Brasil, o mascote “Labareda”, um simpático tamanduá criado em 1992, é o símbolo oficial de campanhas de prevenção dos incêndios florestais.

Perigo à vista

Uma importante informação a ser compartilhada diariamente com a população é o grau de perigo de incêndios florestais, o qual pode ser obtido por índices de perigo de incêndios florestais, como a Fórmula de Monte Alegre (FMA), baseada nas condições meteorológicas da região em questão. Obter essa informação auxilia no planejamento de atividades de prevenção e combate a incêndios florestais, tornando-os mais eficientes.

Atuando na quebra da continuidade horizontal de combustíveis, os aceiros – faixas livres de vegetação de largura variável (não menor que cinco metros) – atuam como barreiras da propagação dos incêndios, impedindo ou dificultando o seu avanço, e ainda podem auxiliar nas ações de combate, facilitando o acesso a áreas mais críticas. A manutenção dessas faixas livres de vegetação deve ser realizada antes do período crítico de ocorrência de incêndios.

Outra opção de barreiras para dificultar a propagação do fogo são as cortinas de segurança, ou barreiras verdes. Estas são faixas de espécies que apresentam baixa inflamabilidade, ou seja, são mais difíceis de queimar, e que podem ser implantadas ao longo de aceiros ou estradas, ou perpendicularmente ao sentido predominante do vento, sempre que possível. Pesquisas com inflamabilidade de espécies vêm sendo desenvolvidas pelo Laboratório de Incêndios Florestais da Universidade Federal do Paraná.

Apesar dos esforços em se prevenir a ocorrência de incêndios florestais, nem todos conseguem ser evitados. Assim, a rápida detecção de focos de fogo é fundamental para as atividades de combate. Sempre que observar focos de uma queimada, comunique o corpo de bombeiros, informando a localidade e pontos de referência. Lembre-se: prevenir é melhor que combater!

Combatendo os incêndios florestais

O combate aos incêndios florestais pode ser dar por métodos diretos, indiretos ou paralelos.

a) Método direto: normalmente são utilizados para controlar eventos de menores proporção. Neste método, o combatente se aproxima da chama e realiza o ataque com uso de abafadores, terra (pás) ou água (bomba costal, moto-bombas).

b) Método paralelo: utilizado quando a intensidade do fogo não é grande, mas que não é possível fazer o ataque direto. Neste método, são construídos pequenos aceiros paralelos a linha de fogo.

c) Método indireto: normalmente são aplicados a incêndios de grandes proporções, onde não há possibilidade do combatente se aproximar da linha de frente. Neste caso, são abertos aceiros em uma distância segura, podendo utilizar também, contra-fogo.

Após a redução da intensidade por meio do método indireto ou paralelo, realiza-se o ataque direto. Além dos métodos convencionais listados anteriormente, em incêndios florestais de grandes proporções também são utilizados aviões-tanque e helicópteros, que podem atuar lançando água ou retardantes químicos.

Erros fatais

Os erros mais comuns nos combates estão associados à falta de planejamento e de utilização de ferramentas adequadas. Para iniciar a atividade, deve-se realizar um breve estudo da situação, sendo adequado a ação de equipes treinadas e com utilização de equipamentos e ferramentas recomendadas.

Sempre que possível, a atividade deve ser realizada em horários mais amenos (como durante a noite/madrugada), que apresentam temperaturas mais baixas e umidade mais alta, podendo, assim, obter resultados mais eficientes. Quanto maior for a extensão da área atingida, mais difícil será o combate, devendo as equipes manter-se em revezamentos. Finalizando o combate, é recomendado ampliar o aceiro e manter uma equipe de patrulha na área. 

Um trabalho importante e que tem evitado incêndios de grandes proporções é a atuação das brigadas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PREVfogo/IBAMA).

Os brigadistas realizam um curso preparatório e só após a formação, atuam em atividades preventivas e de combate aos incêndios florestais nas unidades de conservação e em seu entorno. Dentre as atribuições, realizam construções e manutenções de aceiros, vigilância e monitoramento, educação ambiental, estabelecem calendários de queimas para produtores rurais e, quando necessário, desenvolvem o manejo integrado do fogo.


Ameaça

A ocorrência de incêndios florestais é uma realidade que ameaça diversas partes do mundo, sendo necessário o incentivo a atividades preventivas e a realização de pesquisas capazes de desenvolver novas técnicas para auxiliar a tomada de decisão.

Investimentos devem ser destinados para órgãos fiscalizadores e as ações de prevenção e monitoramento devem ser redobradas próximo e durante a temporada crítica.

Em 2020

226 mil km² foram queimados em todo o País

60.459 focos de calor foram identificados pelo INPE

Os Estados do Mato Grosso, Pará e Amazonas são os responsáveis pelo maior número de focos detectados até setembro de 2020.

– Amazônia concentrou 47,4% dos focos

– Cerrado 28,7%

– Pantanal 11,4%

– Mata Atlântica 8,7%

– Caatinga 2,9%

– Pampa 0,96%.

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