Madeira de lei

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As espécies em destaque no Brasil

Dentre as inúmeras espécies, algumas delas se destacam pela exuberância das suas cores e até hoje são cobiçadas pelo mundo. Entre elas, pau-brasil, mogno, peroba-rosa, ipês e jacarandá

Cristiane de Pieri.Bióloga e pós-doutoranda em Proteção de Plantas – UNESPpieri_cris@yahoo.com.br

Lucas Antonio BensoEngenheiro florestal e doutorando em Ciência Florestal – UNESPbenso.florestal@gmail.com

Lisandro de Proença PieroniEngenheiro florestal e doutorando em Agronomia/Proteção de Plantas – UNESPlisandro.pieroni@hotmail.com

Árvores – Crédito: Shutterstock

Um lindo móvel de madeira de lei pode ser considerado uma joia, não é mesmo? O material, que também pode ser usado em piso, telhados e objetos, traz elegância e valoriza muito o ambiente. Mas, você sabe de onde vem o nome madeira de lei?

A expressão “madeira de lei” vem da época do Brasil Colonial, quando a extração de árvores em florestas nativas dependia da autorização da coroa portuguesa, ou seja, o corte dependia da ordem positiva da coroa (permissão por lei), pois a matéria-prima era utilizada na construção de navios e móveis exclusivos da coroa.

Com o passar dos anos, com a independência do Brasil a expressão passou a indicar também as árvores de madeira nobre, que hoje é controlada por leis ambientais que visam evitar a destruição das florestas nativas, impedindo também a extinção das espécies que estão ameaçadas de extinção, entre elas: a castanheira (Bertholletia excelsa); a seringueira (Hevea brasiliensis); o mogno (Swietenia macrophylla); o cedro-rosa (Cedrela fissilis); a imbuia (Ocotea porosa); o pau-brasil (Paubrasilia echinata); a araucária (Araucaria angustifollia), etc.

As madeiras que recebem essa designação referem-se àquelas que possuem lenho com maior durabilidade e são mais resistentes às adversidades abióticas, como a temperatura, a geada e a umidade e também bióticas, como o ataque de cupins, pragas e doenças.

Com o desenvolvimento das árvores, o tronco se torna mais resistente, firme, devido à diminuição de uma camada de células chamada alburno (parte externa do lenho, formada por células vivas e ativas do xilema, têm a função da condução de água e nutrientes para a parte aérea da planta). Com a diminuição do alburno, o cerne vai sendo formado (parte interna do lenho, formado por células mortas do xilema, têm função de sustentação), durante este processo a madeira se torna menos quebradiça, portanto, mais resistente, e assume a coloração mais escura. 

Durabilidade

As madeiras de lei, como já mencionado, têm maior durabilidade que as madeiras comuns, como pinus e eucalipto, devido à produção no seu cerne, de substâncias químicas, como óleos, corantes, lignina, taninos e resinas, que foram depositadas durante à sua formação.

Tais substâncias são responsáveis pelas diferentes colorações do cerne em várias espécies vegetais, protegem o tronco do ataque de pragas e de doenças e também são responsáveis pelo odor característico de cada madeira.

Dependendo da espécie, a madeira apresenta notáveis e diversas tonalidades que abrangem desde o branco, amarelo, bege-amarelado, vermelho ao marrom escuro. Como exemplos: o ipê possui coloração desde o verde escuro ao marrom escuro; o cerne do cedro é rosa escuro, já do pau-marfim é palha e do angelim pedra vai desde um amarelo claro ao marrom.

Com isso, essas madeiras são empregadas em diversos ramos, tais como em instrumentos musicais, como arco de violinos, na construção civil (portas, janelas, etc.) e naval (embarcações), em móveis de luxo, coronhas e empunhaduras, entre outros. Dependendo do grau de dureza da espécie, essa servirá para diferentes destinos. 


Quem são elas

A primeira árvore que recebeu a designação de “madeira de lei” no Brasil foi o pau-brasil (Paubrasilia echinata).  Na lista encontram-se várias espécies, como: a araucária (Araucaria angustifolia); a andiroba (Carapa guianensis); o angico (Amnadenathera macrocarpa); o araribá (Centrolobium tomentosum); a aroeira (Myracrodruon urundeuva); a castanheira do brasil (Bertholletia excelsa); o cedro-rosa (Cedrela fissilis); a imbuia (Ocotea porosa); o ipê (Handroanthus sp. e Tabebuia sp.); o jacarandá (Dalbergia  nigra; D. cearensis); o jatobá (Hymenaea courbaril); o guanandi (Calophyllum brasiliensis); o mogno brasileiro  (Swietenia macrophylla); o pau-ferro (Caesalpinia ferrea); a peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron), etc.

Em destaque

Dentre as inúmeras espécies, algumas delas se destacam pela exuberância das suas cores e até hoje são cobiçadas pelo mundo.  

O pau-brasil é uma espécie que atinge de oito a 12 m de altura, com tronco que varia de 40 a 70 cm de diâmetro. Sua madeira é pesada, dura, compacta e altamente resistente, com textura fina e coloração vermelho vivo, empregada na confecção de arcos para instrumentos de corda.

O mogno brasileiro é uma das espécies mais cobiças do País e é considerada uma das melhores madeiras do mundo. Atinge a altura de 25 a 30 m e seu tronco varia de 50 a 80 cm de diâmetro.

Sua madeira possui coloração que vai desde a cor castanha até tons vermelhos, têm densidade de 0,63g/cm3, mas apresenta baixa durabilidade em contato com a umidade quando comparado às outras espécies, é dura e utilizada na produção de mobiliários de luxo, painéis, esquadrias e na construção civil em rodapés, molduras, assoalhos, venezianas, instrumentos musicais, etc.

A peroba-rosa tem de oito a 16 m de altura e 40 a 70 cm de diâmetro. Possui madeira dura, de grande durabilidade, com coloração típica do nome: rosa, embora possa ter tons alaranjados. É empregada em tacos e carrocerias, na construção civil, em objetos sofisticados de decoração, na fabricação de móveis, compondo um estilo rústico, mas requintado. 

A madeira dos ipês (amarelo, roxo, branco, preto, etc.) é conhecida desde os tempos remotos. Os índios a usavam para a confecção dos seus arcos de caça. Alcançam de 10 a 40 m de altura e possuem tronco de 40 a 150 cm de diâmetro.

Sua madeira tem a coloração amarelo-acastanhada, não apresentando veios aparentes. Possuem alta resistência à decomposição, mesmo quando expostas às intempéries ambientais. Com isso, é utilizada na construção civil em obras externas, hidráulica e para acabamentos internos, e também em estacas e mourões.

As espécies de jacarandá têm madeira de lei muito utilizada em móveis de luxo, como mesas, cadeiras, armários, na construção civil em acabamentos, lâminas faqueadas, tornearia, marchetaria e também na fabricação de instrumentos musicais, como o piano e em adornos de joias. 

As espécies atingem de cinco a oito metros de altura e de 15 a 40 cm de diâmetro de tronco, com alta resistência ao apodrecimento.

Mantendo a floresta de pé

A maioria das espécies de madeira de lei são protegidas por leis ambientais e a exploração é controlada visando minimizar os impactos ambientais, como a destruição das florestas nativas e proteger as espécies ameaçadas de extinção. 

Com isso, uma forma de suprimir a extração de madeiras de lei nativas é a produção de florestas comerciais com espécies nobres exóticas. Um dos exemplos é a substituição do mogno brasileiro (Swietenia macrophylla) pelo mogno africano (Khaya ivorensis), mesma família do mogno brasileiro e do cedro, mas possui de 100 a 150 cm de diâmetro e a coloração da sua madeira tem tonalidades marrons a tons avermelhados.

Outra opção é o cultivo comercial da espécie nativa do continente asiático: a teca (Tectona grandis), que possui alta resistência ao fogo, ao calor, a umidade e a água do mar. A madeira do cerne possui coloração castanho amarelada a tons de marrom vivo e brilhante, sendo muito empregada na fabricação de móveis finos, na construção naval (embarcações), pisos, chapas, painéis, postes, dormentes, etc.