Manejo de nematoides no milho via tratamento de sementes

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Rafael Rosa Rocha
Engenheiro agrônomo e mestre em Ambiente e Sistemas de Produção Agrícola – Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)
rafaelrochaagro@outlook.com

Crédito: Shutterstock

O milho é uma das principais culturas cultivadas no Brasil, uma vez que se estende por todo o território nacional sob diversos níveis tecnológicos e interage com diversos setores do mercado financeiro.

Tamanha importância faz com que duas concentrações de cultivo sejam pertinentes no País: a primeira safra ou safra de verão, que vai de agosto a novembro, dependendo da região e, posteriormente, a safrinha, sendo que esta última se dá após o cultivo de soja precoce nos meses de fevereiro a março.

Para os produtores obterem altos índices em produtividade, há a necessidade da adoção de um correto manejo da cultura. Uma série de nematoides podem impactar de forma significativa a produtividade do milho.

Discretos, mas danosos

A presença dos nematoides normalmente passa despercebida, mas eles podem causar amarelecimento e redução do tamanho das plantas de milho, com produção de espigas sem valor. Nesses termos, a melhor estratégia de controle dos nematoides é o tratamento de sementes com nematicidas químicos e biológicos.

Dentro deste manejo, o tratamento de sementes entra como uma ferramenta importante para auxiliar no manejo dos nematoides. O tratamento de sementes tem o objetivo de suprimir os nematoides durante as primeiras semanas após a semeadura e muitas vezes durante todo o ciclo do cultivo.

Com isso, há a diminuição da penetração, protegendo as plântulas e permitindo um desenvolvimento adequado do sistema radicular. Essa técnica funciona como um forte aliado das lavouras, possibilitando melhor estabelecimento do estande e maior produtividade. Mas, mesmo sendo muito importante, o tratamento de sementes deve ser eficiente a ponto de refletir em resultados positivos no campo.

Tratamento de sementes

Funcionando como uma estratégia de manejo preventivo, o tratamento de sementes possibilita que o agricultor tenha maiores chances de sucesso, baseados em uma boa germinação das sementes com um bom desenvolvimento inicial das plantas.

A tecnologia relacionada ao tratamento de sementes pode ser aplicada de duas maneiras: on farm (na fazenda, em livre tradução), realizado logo antes da semeadura pelo próprio agricultor, ou através do TSI (tratamento de sementes industrial), que consiste em aplicações automatizadas por meio de equipamentos de alta tecnologia, normalmente realizado nas Unidades de Beneficiamento de Sementes (UBS).

Dentre os tratamentos, a melhor estratégia de controle dos nematoides é o tratamento de sementes com nematicidas químicos e biológicos. O tratamento biológico de sementes, também descrito como micobiolização, refere-se à aplicação de microrganismos vivos às sementes para o controle de doenças, pragas, fitonematoides, e podem em alguns casos promover o crescimento de plantas.

Vantagens

A utilização desses agentes biológicos no tratamento de sementes (TS) para milho apresenta vantagens no estabelecimento da cultura, proteção das sementes e, em alguns casos, auxilia no processo de germinação, promovendo maior crescimento inicial. 

O controle biológico no tratamento de sementes de milho se baseia na relação antagônica entre um microrganismo e um patógeno, por meio da redução da população do patógeno ou por outros tipos de ações.

O tratamento de sementes auxilia na proteção de danos causados por pragas e oferece garantia adicional ao estabelecimento da lavoura, pelo desenvolvimento de plantas vigorosas e sadias. Essa prática protege a semente desde o contato inicial com o solo até o início do crescimento das plantas.

O tratamento biológico de sementes é mais uma ferramenta dentro do mercado agrícola que agrega outros tipos de controle e aumenta o leque de opções no manejo, contribuindo para um sistema mais sustentável, com baixo impacto ambiental e aumento de produção das culturas, sendo o controle biológico extremamente viável.

Trichoderma

O fungo Trichoderma spp. representa um dos mais utilizados na agricultura mundial, por sua eficácia no controle biológico de doenças de plantas, entre as quais se destacam fungos fitopatogênicos: Alternaria spp., Colletotrichum spp., Fusarium spp., Phytophthora spp., Pythium spp., Rhizoctonia spp., Sclerotinia e Verticillium, além dos fitonematoides do gênero Meloidogyne  e Pratylenchus.

O Trichoderma é um fungo filamentoso de vida livre, encontrado em praticamente todos os tipos de solos. Apresenta uma importante função ecológica, atuando como biofertilizante na decomposição de folhas, caules, raízes e de resíduos animais que, depois de decompostos, torna os nutrientes solúveis, permitindo assim uma maior e mais rápida absorção pelas plantas.

Algumas espécies desse fungo constituem-se importantes organismos de controle biológico de pragas e doenças, em função de apresentarem capacidade de produzir antibióticos, enzimas e hormônios.

A promoção do desenvolvimento vegetal induzida por Trichoderma está relacionada ao estímulo da multiplicação celular, por meio do aumento da disponibilidade e absorção de nutrientes pela planta, produção de hormônios e aumento da área do sistema radicular.

Como funciona

Os mecanismos associados ao potencial controle biológico deste fungo envolvem o antagonismo, parasitismo, predação, antibiose, competição e indução de resistência. Além disso, alguns fungos têm a capacidade de promover o crescimento vegetativo por meio da colonização interna do sistema radicular, de forma que a planta possa absorver uma maior quantidade de água e nutrientes, além de tolerar outros estresses bióticos e abióticos

Além do Trichoderma spp., outros principais fungos utilizados no controle biológico são fungos como Bacillus spp., que via tratamento de sementes tem-se encontrado resultados positivos no controle de diversas pragas.

As bactérias do gênero Bacillus possuem rápida colonização e boas características. Estas, além de promotoras de crescimento, são capazes de produzir metabólitos tóxicos aos nematoides, formando uma barreira de proteção no sistema radicular, desorientando os nematoides, além de competir por nutrientes e espaço com os patógenos, ou ainda, induzir resistência à planta.

As espécies de Bacillus mais utilizadas no controle de nematoides em diversas culturas são: B. subtillis, B. licheniformis, B. amyloliquefaciens, B. methylotrophicus e B. rmus.

Tratamento químico

No caso do tratamento químico de sementes, ele consiste na aplicação de compostos sintéticos com as mais diversas finalidades, mas com o mesmo objetivo: o aumento da produtividade das sementes, controle de pragas e melhor potencial na fase inicial ou estande.

Neste ramo de tratamento, até a atualidade, é possível aplicar com eles: fungicidas, inseticidas e nematicidas, sendo estes aplicados com uma rápida molhagem da semente.

Biológicos x químicos

No final das contas, ambos os tipos de tratamentos podem ser tanto utilizados em conjunto como separadamente. Tais escolhas dependem das necessidades e preferências do produtor.

Esta união também depende do possível conflito entre a formulação de cada produto e das necessidades da cultura e dos agentes patogênicos em questão. Essas informações nos mostram uma ampla gama de possibilidades no quesito de variações nos formulados dos tratamentos de sementes.

Assim, a interação entre elas é um fator a ser analisado para cada situação, sempre visando a melhor produtividade e saúde dos consumidores.

De início, é conhecer qual o alvo para, só após, escolher o método mais eficaz de fazer o controle. A escolha do produto para tratamento de sementes é o fator-chave que pode influenciar no desempenho, sanidade, segurança e impactos ambientais.

A seleção dos produtos e as combinações devem se basear exclusivamente em produtos registrados para a cultura-alvo e a qualidade do tratamento de sementes realizado também determinará a eficácia da técnica.

Além disso, é importante a precisão de doses dos produtos, a correta quantidade de sementes, a homogênea cobertura delas e o tempo de armazenamento para obter sucesso no TS, pois muitos produtos, por serem biológicos, possuem tempos de durabilidade (os conhecidos “shelf life”).

Portanto, as recomendações da bula devem ser seguidas de acordo com as empresas responsáveis pelos bioprodutos, que fornecem informações quanto às faixas de tolerância de seus agentes, principalmente em relação à temperatura, umidade e pH, para que o produtor escolha o produto mais apropriado às suas necessidades e que possa expressar todo seu potencial.

Do plantio à colheita

Os benefícios proporcionados pelo tratamento de sementes são observados do plantio à colheita. O tratamento proporciona resultados positivos na fisiologia da planta, resultando em melhor enraizamento e maior resistência aos ataques de nematoides e demais pragas.

Mantém a qualidade, germinação e vigor das sementes; e garante o estabelecimento uniforme do estande de plantas. Considerando o estabelecimento de estandes na cultura do milho, a produtividade de grãos tende a reduzir linearmente quando a desuniformidade no estande de plantas aumenta. Já na cultura da soja, a desuniformidade do estande é menos impactante na produtividade, pois a soja possui capacidade maior de compensação, porém, quando o estande é altamente afetado, vai influenciar nos dados finais da colheita.

Com isso, é notório o efeito do tratamento de sementes sobre o desenvolvimento da cultura, considerando que o estabelecimento inicial da lavoura, com plântulas vigorosas e protegidas, resultará em uniformidade do estande, melhor desenvolvimento da cultura ao longo do seu ciclo e, consequentemente, maior produtividade final.

Todo cuidado é pouco

No tratamento de sementes deve-se prestar atenção à dose utilizada – um grande erro está na utilização de superdosagens, que pode levar à diminuição da germinação e do vigor das sementes e afetar, consequentemente, o estabelecimento da cultura.

É de suma importância, ainda, se adequar ao tempo de sobrevivência dos agentes biológicos para melhorar a eficiência do tratamento. Outro erro frequente é em áreas com altas infestações de pragas ou patógenos acreditar que o controle biológico utilizado apenas uma vez resolverá o problema. O correto é fazer a utilização frequente em cada safra, para usufruir dos benefícios duradouros e efetivos.

Outro ponto é entender que a associação de químico e biológico pode trazer maior amplitude de rotação de princípios ativos de controle, quando associados, garantindo uma menor ocorrência de resistência na área e maior controle.

A eficácia, praticidade, segurança, tecnologia de aplicação, manutenção dos bioagentes e rentabilidade são essenciais para a incorporação do tratamento biológico de sementes pelos agricultores e sociedade.

De acordo com o cenário dos últimos anos, nota-se que houve um aumento geral no custo de produção, o mesmo ocorrendo com o valor das sementes, que vem apresentando aumento considerável no seu custo desde a safra de 2023.

Associação de manejos

São inúmeros os benefícios do tratamento de sementes em geral e associar o controle biológico ao tratamento de sementes é só ganho. Em média, o custo do tratamento de sementes de milho representa apenas 0,65% do custo de produção, enquanto se houver necessidade de replantio, o custo representa em torno de 14%.

O tratamento de sementes pode ser considerado uma prática de excelente relação custo x benefício para o produtor, pois requer investimento relativamente baixo e resulta em alto retorno financeiro.

Com isso, o tratamento de sementes pode ser visto como um “seguro” realizado pelo produtor no início da implantação da lavoura, uma vez que, ao utilizar sementes tratadas, a tendência é alcançar maior produtividade.

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