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quinta-feira, abril 18, 2024
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Mudas de mamão clonado

Conny de Wit
Proprietária da SBW do Brasil

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de mamão, atrás apenas da Índia, e o maior exportador, atendendo a mercados exigentes como os Estados Unidos e a Europa. A cadeia produtiva do mamão emprega cerca de 33 mil pessoas no Brasil e movimenta cerca de R$ 900 milhões no mercado interno.
As principais variedades cultivadas no Brasil são a Solo e a Formosa. Segundo a literatura, o mamão formosa foi introduzido no Brasil na década de 60, proveniente da Ásia. Este é um tipo de mamão de frutos grandes e alongados, com polpa vermelha e casca-grossa.
Ele se adaptou bem ao clima tropical brasileiro e se tornou uma das principais frutas produzidas e consumidas no País. Das variedades de formosa produzidas no Brasil, atualmente, a principal delas é a Tainung 01, que além de ser muito bem aceita no mercado nacional, possui características de formato de fruto e brix de alta aceitação no mercado externo, portanto, principal variedade escolhida pelos exportadores.

O mamão clonado é oriundo de seleções realizadas a campo pela SBW
Fotos: SBW Brasil

Área de produção

Segundo os dados do IBGE, a área colhida de mamão papaia no Brasil teve uma redução de cerca de 11 mil hectares entre os anos de 2011 e 2021. Em 2011, a área colhida foi de 34.417 hectares, com uma produção de 1.871.961 toneladas e um rendimento médio de 54,39 toneladas por hectare.
Em 2021, a área colhida foi de 28.495 hectares, com uma produção de 1.256.703 toneladas e um rendimento médio de 44,10 toneladas por hectare. Segundo levantamentos feitos pela Brapex, a área total de produção reduziu ainda mais – a associação registrava em 2018 áreas totais em torno de 28.000 hectares, mas um levantamento detalhado feito em 2022 e apresentado no VIII Simpósio de Papaya Brasileiro, que aconteceu na cidade de Linhares (ES), a área total não passa de 13.585 hectares.
Os principais Estados produtores de mamão papaia no Brasil, de acordo com este levantamento da Brapex de 2022 são: em primeiro lugar a Bahia, com 5.250 hectares, seguido pelo Espírito Santo, com 4.100 hectares, Minas Gerais com 1.900 hectares, o Ceará e Rio Grande do Norte com 1.245 hectares, e diversas outras regiões que somam 1.090 hectares.
Em termos de produtividade por hectare, os produtores profissionais também destacam que tradicionalmente a produtividade do mamão solo está em torno de 70 toneladas por hectare e da variedade formosa em torno de 140 toneladas por hectare.

Explicação para a redução de área

Segundo especialistas, um dos principais motivos para esta drástica redução da área cultivada está na dificuldade de se produzir. A produção de mamão pode ser afetada por várias doenças que podem impactar significativamente o rendimento das áreas implementadas e a qualidade da fruta.
Em virtude da pressão elevada de vírus na cultura do mamão, os produtores são obrigados a migrar sempre para novas áreas na busca de produtividade e rentabilidade. Com as distâncias sendo cada vez maiores em virtude dos índices de viroses aumentando em todas as regiões, os produtores acabam desanimando e desistindo da cultura.
Outro fator que contribuiu para a redução drástica das áreas plantadas, em especial a partir de 2018, ocasionado por desastres naturais ocorridos em Taiwan, atingindo as áreas de produção de sementes de formosa, geraram uma grande falta de sementes importadas no mercado.
Os volumes de semente que chegaram ao País entre os anos de 2019 a 2021 foram muito menores do que a demanda por sementes, portanto, produtores que tinham intensão de plantar não conseguiram, por não encontrarem as sementes no mercado.

Oportunidade de mercado

Em meio a este cenário, a SBW do Brasil apresentou ao mercado um novo produto, o mamão clonado, oriundo de seleções positivas realizadas a campo, portanto, indivíduos altamente produtivos e já 100% hermafroditas, que são produzidos em laboratório.
Quando lançamos nossas mudas no mercado, ninguém acreditava elas seriam realmente 100% hermafroditas. A desconfiança foi muito grande com relação à tecnologia de mudas clonadas. A falta da semente auxiliou muito a impulsionar a entrada deste novo produto no mercado e os produtores, por falta de opção, aceitaram testar a tecnologia.
Em 2020 foram plantados cerca de 25 hectares de mamão clonado no País. Um ano depois, este número alcançou 200 hectares, em 2022 o mamão clonado já foi responsável pela implementação de 575 hectares e em 2023 deve ultrapassar a casa dos 1.000 hectares.
Ou seja, a tecnologia do mamão clonado já está ocupando 7% da área total de mamão, e 13,5%, se avaliada exclusivamente a área plantada de formosa, única variedade ainda disponível nesta tecnologia.

Vantagens que falam mais alto

Avaliando todas as vantagens que este produto oferece aos produtores fica fácil entender por que está crescendo tanto. Com uso reduzido de mão de obra no momento do plantio, planta-se apenas uma muda por cova, ao invés das quatro necessárias, quando se planta mudas de semente.
Por serem 100% hermafroditas, não há a necessidade de realizar o procedimento de sexagem do material, portanto, o plantio é mais uniforme e as plantas se desenvolvem melhor, com menos competição. Com isso, a floração é muito mais precoce, cerca de um a dois meses antes, quando comparado com as mudas de sementes.
As plantas clonadas apresentam um sistema radicular diferente, múltiplo, ao invés de uma raiz pivotante mas, ao contrário do receio que os produtores tinham diante desta característica, ficou comprovado a campo que esta estrutura radicular múltipla oferece excelente fixação e sustentabilidade para a planta adulta.
Ainda, a frutificação é ampla e muito mais vigorosa, além de iniciar muito mais próxima ao solo. Por todas as árvores do campo serem idênticas, altamente produtivas, a produtividade por hectare tem se demonstrado muito superior.
Áreas que alcançaram o terceiro cacho apresentaram resultados que devem alcançar 180 toneladas por hectare, seguramente 25% ou mais acima da média de produtividade, de 140 toneladas por hectare sendo registrada ao longo dos últimos anos.
Exportadores relatam, ainda, que o aproveitamento dos frutos para exportação no packing house chega a ser de 80 a 90%, sendo 60% dos frutos de calibre médio (em torno de 1,2 kg) e o restante com calibre médio para menor (800 g).
A coloração externa é excelente, com pele brilhante e lisa, e a coloração interna da polpa alaranjada para avermelhada intensa, com Brix em torno de 11 a 13%.

A técnica pode gerar até 20% de incremento em produtividade
Fotos: SBW Brasil

Desafios

Com a nossa tecnologia agora disponível para as empresas de melhoramento e os produtores brasileiros, a primeira grande conquista é que o Brasil não necessita mais depender de seleções feitas em Taiwan ou outro país.
Podemos selecionar e desenvolver aqui mesmo no Brasil os materiais que atendam o mercado nacional, nas condições edafoclimáticas locais, ou seja, todas as empresas que já estão trabalhando com cruzamentos e melhoramento genético de variedades têm uma nova tecnologia que podem utilizar para levar seus materiais de forma mais rápida e segura ao mercado.
Assim, não precisam mais desenvolver a produção de sementes que, por melhor que seja, vai continuar mantendo uma enorme variabilidade genética. Basta que, ao identificar um material genético de potencial, este melhorista, ou mesmo o produtor, como já fazemos para outros produtos, selecione no campo cerca de cinco das melhores plantas no pomar, para que nossa equipe técnica vá à propriedade realizar a coleta.
Esta técnica pode gerar até 20% de incremento em produtividade, não somente na variedade Tainung 01, como já comprovado, mas para outras variedades também.
Neste momento já estamos selecionando material de variedades solo e outras formosas com potencial, mas neste momento estamos focando apenas nas variedades livres. Se algum melhorista quiser contratar nossos serviços, estamos às ordens.
Viabilidade

Atualmente, o preço de uma muda clonada, 100% hermafrodita, é um pouco mais alto do que o de quatro mudas oriundas de semente. No entanto, os benefícios são significativamente maiores e o retorno financeiro do investimento que se faz em uma muda clonada seguramente se paga.
Os produtores profissionais já perceberam isto. Para eles, essa uniformidade e qualidade já está comprovada no campo. Logo, o mercado produtor inteiro perceberá e entenderá que, para se colher próximo a 200 toneladas por hectare, no que diz respeito à variedade formosa, basta investir em mudas clonadas, 100% hermafroditas, com formação de frutos uniformes e de alta produtividade.
Para sobreviver em um mercado altamente competitivo, principalmente em tempos de oscilações de preço para a fruta colhida, seja ela em alta ou em baixa, quem tiver mais produtividade será mais competitivo e conseguirá sobreviver. Muda clonada é uma nova tecnologia que veio para ficar.

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