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Percevejos fitófagos: danos à cultura da soja

Crédito Jovenil da Silva

José Luis da Silva Nunes
Engenheiro agrônomo, doutor em Fitotecnia – Badesul – Agência de Fomento do Estado do Rio Grande do Sul
silva.nunes@ufrgs.br  

Os insetos da ordem Hemiptera, à qual pertencem os percevejos fitófagos, que são insetos sugadores considerados as pragas de maior relevância econômica no Brasil para a cultura da soja (Glycine max (L.) Merrill), sendo que as famílias de maior importância são a Pentatomidae (percevejos sugadores de grãos), Cydnidae (percevejos sugadores de raízes) e Alydidae (percevejos sugadores de grãos).

Espécies nocivas

O complexo de percevejos constitui o maior risco à soja, causando danos irreversíveis à cultura, pois se alimentam diretamente dos grãos desde o início da formação de vagens. As espécies consideradas mais nocivas à soja são:

  1. Nezara viridula (Linnaeus): o percevejo verde é originário do Norte da África, tendo distribuição mundial. Devido à sua menor adaptação a climas mais quentes, não se expandiu para a região Centro-Oeste, sendo mais comum na região sul do Brasil.

A partir do 3º instar as ninfas passam a alimentar-se dos grãos de soja, com intensidade crescente, até o 5º ínstar. O período ninfal pode durar entre 20 e 25 dias. Os adultos têm uma longevidade média de 53 dias.

Esta espécie é extremamente polífaga, permanecendo em atividade o ano todo nas regiões com temperaturas mais amenas, como o Norte do Paraná, quando se reproduz por um período mais longo, podendo completar até seis gerações por ano.

No Sul do Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, após a colheita da soja, o percevejo verde entra em hibernação (diapausa) sob a casca de árvores ou em abrigos, como fendas em troncos e mesmo em residências. Nesta época, troca de cor, passando de verde para castanho arroxeado.

  • Piezodorus guildinii (Westwood): o percevejo verde pequeno é nativo da região neotropical, tendo se adaptado plenamente à cultura da soja. Tem ampla distribuição geográfica, ocorrendo desde a região tradicional de cultivo da soja (região sul) até as regiões de expansão recente do Norte e Nordeste do País. Este percevejo completa três gerações na cultura da soja no período do verão, dispersando após para as anileiras, crotalária e, em menor intensidade, para o guandu.

Esta espécie é considerada mais prejudicial à qualidade das sementes e pode provocar maior retenção foliar à soja do que os demais percevejos.

  • Euschistus heros (Fabricius): o percevejo marrom é a espécie mais abundante atuando na cultura da soja. Nativo da região neotropical, é mais adaptado às regiões mais quentes, sendo mais abundante do Norte do Estado do Paraná ao Centro-Oeste brasileiro.

A partir de 3º instar as ninfas são mais ativas, iniciando a dispersão e tornando-se mais vorazes. Os adultos apresentam longevidade média de 116 dias, podendo viver por mais de 300 dias.

Este percevejo é o menos polífago dentre os percevejos mais importantes da soja. Durante a safra dessa cultura, tem três gerações. Após a colheita da soja, alimenta-se de outras plantas hospedeiras, completa a quarta geração e entra em diapausa na palhada da cultura anterior.

Nesse período, que dura aproximadamente sete meses, não se alimenta, mas consegue sobreviver das reservas de lipídios que foram armazenadas antes. Este fato permite ao percevejo marrom escapar do ataque de parasitoides e predadores na maior parte do ano, resultando em maior sobrevivência e favorecendo a sua abundância.

Outros percevejos

Existem diversas outras espécies de percevejos atacando os grãos da soja, em menor intensidade. Esses insetos, isoladamente, não chegam a formar populações que ameacem a produtividade e a qualidade da soja, mas seus danos são cumulativos ao das espécies principais.

Danos

Os percevejos afetam seriamente o rendimento e a qualidade dos grãos e sementes produzidos. Esses são responsáveis pela redução no rendimento e na qualidade da produção, que tendem a ficar menores, com grãos enrugados, chochos e mais escuros.

A má formação das vagens e dos grãos provoca o retardamento da maturação (retenção foliar e haste verde), que ficam verdes e não caem na época da colheita, dificultando a mesma.

No caso das sementes, seu ataque pode promover a produção de sementes atrofiadas, enrugadas, de tamanho pequeno e peso baixo, bem como o abortamento de grãos e vagens, além de reduzir o poder germinativo das sementes.

Outro fato a ser destacado é a possibilidade de transmissão de doenças às sementes de soja, como a levedura Nematospora coryli Peglion, que irá colonizar os tecidos das sementes, deteriorando-as e provocando redução de vigor e viabilidade.

Monitoramento

O período considerado crítico de ataque dos percevejos é o que vai do desenvolvimento de vagens ao enchimento de grãos. Neste, é importante observar os níveis de controle recomendados pelo Manejo Integrado de Pragas (MIP), quando a população atingir, por pano de batida (uma fileira), até quatro percevejos (adultos ou ninfas a partir do terceiro instar), para campos de produção de grãos, e dois percevejos por pano de batida para campos de produção de sementes.

As amostragens devem ser realizadas em diferentes pontos da lavoura, principalmente nas bordaduras, por onde os percevejos iniciam a infestação. O número de amostras varia conforme o tamanho da lavoura (o número de amostras vai garantir confiabilidade à informação obtida).

Têm sido relatadas altas populações de percevejo marrom e percevejo verde pequeno no período entre novembro e dezembro, quando a soja se encontra em fase vegetativa e/ou de florescimento. Estas infestações não causam danos significativos, não havendo necessidade de controlar os insetos.

Crédito Fernando Fávero

Além disso, a ocorrência de populações elevadas de percevejos no período de maturação da soja não compromete de forma significativa o rendimento da cultura. Neste período, os danos mais significativamente prejudiciais relatados dizem respeito ao provocado pelo percevejo verde pequeno, com diminuição de qualidade acentuada dos grãos e maior aumento de retenção foliar.

Controle

O controle pode ser realizado de forma química e biológica. Vários inseticidas são registrados e recomendados para controle de percevejos, mas deve-se sempre levar em conta os critérios da eficiência e da seletividade aos inimigos naturais.

A seletividade aos parasitoides e predadores que ocorrem nas lavouras é fundamental para um eficiente controle das populações dos insetos-pragas. Isto porque várias espécies de inimigos naturais são encontradas nas lavouras de soja, reduzindo as populações dos percevejos e mantendo-as abaixo do nível de dano econômico.

Parasitoides como o microhimenóptero Trissolcus basalis (Wollaston) parasitam os ovos de diferentes espécies de percevejos, sendo comumente encontrados em posturas de percevejo verde, percevejo verde pequeno e percevejo marrom. 

Táticas eficientes

A adoção de práticas que controlem os insetos-pragas nas lavouras deve incluir aquelas que evitem o surgimento de populações resistentes aos inseticidas e que privilegiem o controle biológico e o monitoramento de populações.

As populações de percevejos devem ser monitoradas durante o período de safra e após a colheita, buscando-se localizar plantas hospedeiras e locais propícios à diapausa, visando à eliminação dos mesmos.

Desta forma, com controle químico seletivo aos inimigos naturais e constante monitoramento, o manejo das populações de percevejos será mais eficiente.

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