Perfil do solo: Investimento com lucro certo

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Autor

Marco Túlio Gonçalves de Paula
Engenheiro agrônomo e mestrando em Qualidade Ambiental – Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
mtulio.agro@gmail.com

Atualmente, muito se fala em perfil de solo e seus benefícios, mas na prática, isso é uma realidade nas nossas lavouras? A construção de um solo profundamente agricultável demanda tempo, investimento e bastante conhecimento sobre a química que compõe cada gleba, que deve ser trabalhada separadamente mediante análises e boas recomendações.

A calagem já é uma prática comum às lavouras e bastante dominada pelos agricultores brasileiros. Com a chegada da agricultura de precisão, ficou notória a melhoria na uniformidade das áreas quanto à fertilidade do solo, mas tratar apenas a primeira camada de 20 cm de profundidade do solo não é suficiente para atingir patamares de altas produtividades.

Clima tropical

O Brasil cultiva soja e milho num clima tropical, com presença de veranicos mesmo na estação chuvosa, o que proporciona estresse hídrico nas plantas e quebra do ciclo produtivo, onde ocorre o redirecionamento do gasto energético do vegetal, que cessa a produção para se manter vivo na adversidade.

Isso acontece porque a água no solo vai secando em profundidade, e quando a raiz não mais consegue esse contato com a umidade, é interrompida a absorção de solução nutritiva, levando ao estresse hídrico e nutricional e resultando em queda na produção.

A alternativa para reduzir os impactos negativos dos veranicos sobre as plantas é a formação do perfil do solo, que nada mais é que aumentar em profundidade a camada favorável ao desenvolvimento das raízes. O primeiro passo para implementar essa técnica consiste nas análises do solo em profundidades superiores a 20 cm.

Inicialmente, solicitava-se análise do perfil de 0 a 20 e de 20 a 40 cm para lavouras de soja e milho, mas já existem trabalhos e áreas comerciais que mostram a eficiência de se ter um perfil agricultável de até 1,0 m.

Recomendações

A agricultura brasileira nas áreas de sequeiro se pauta, na maioria das regiões, em duas safras: a primeira, geralmente de soja ou milho grão, e a segunda geralmente com milho grão ou silagem, sorgo grão ou silagem, milheto, trigo, girassol, entre outras.

O perfil do solo favorece muito o desenvolvimento principalmente da segunda safra, que se inicia entre final de janeiro e meados de abril, quando a cultura se desenvolve ao fim da época das águas. Por isso, quanto mais profundas as raízes, melhor a captação de água do solo, menores são os estresses hídricos e nutricionais e, consequentemente, maior a produtividade.

O segundo passo após as análises químicas é saber a quantidade de alumínio e cálcio em cada camada mais profunda do solo. A intenção é fazer recomendações para disponibilizar mais cálcio e lixiviar cada vez mais o alumínio, que em altos teores é toxico e desfavorece o desenvolvimento radicular.

Esse manejo é feito com o gesso agrícola, composto de sulfato de cálcio dihidratado. No solo, o sulfato separa-se do cálcio, que é disponibilizado para as plantas, e se liga ao alumínio, formando sulfato de alumínio, cuja carga é neutra, não ocorrendo ligação química ou fixação com as partículas do solo, sendo facilmente lixiviado. Com a lixiviação do alumínio para camadas mais profundas e disponibilização de cálcio, a raiz passa a se desenvolver também nessa camada.

Safra após safra, com as colheitas, essas raízes que se desenvolveram nas camadas mais profundas são decompostas, melhorando a porosidade do solo, pois os canalículos formados por elas permanecem presentes naquela faixa de solo, além da disponibilização também de matéria orgânica oriunda dessas raízes em profundidade no solo, aumentando a CTC da camada mais profunda, a atividade microbiológica, a bioativação de nutrientes antes fixados, a infiltração de água da chuva, reduzindo escorrimento superficial, e muitos outros benefícios.

A recomendação do gesso agrícola é feita de acordo com o teor de argila do perfil, nos quais solos mais arenosos exigem menor quantidade do insumo e aqueles mais argilosos, maior quantidade. Geralmente essa dose varia de 700 kg/ha até 2,0 ton/ha do insumo. A aplicação é feita em superfície a lanço, apesar de já existirem implementos capazes de aplicar gesso agrícola e calcário em profundidade. Devido à sua alta solubilidade, a aplicação do gesso em superfície tem se mostrado eficiente na correção do solo em camadas mais profundas.

Viabilidade

Assim como a calagem, o custo com a formação de perfil de solo se paga e agrega em lucratividade para as lavouras que usam da prática, além de melhorar a área de forma dificilmente reversível.

Essa melhoria no desenvolvimento das raízes em profundidade leva também ao aumento da eficiência dos demais insumos utilizados no solo, como adubos e defensivos, pois a taxa de absorção pela planta é aumentada, e também na ciclagem dos nutrientes já lixiviados, pois a planta os trazem novamente para a superfície via palhada.

Para a interpretação da análise química do solo e recomendação dos insumos para formação de perfil do solo e correção da camada agricultável, a assistência de um engenheiro agrônomo especializado em fertilidade do solo é fundamental, pois cada área tem características peculiares e exige diferentes calcários e quantidades de gesso.