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Projeto Biomas

Créditos: Pixabay

O projeto mobilizou 400 pesquisadores e 120 instituições em 10 anos

O Projeto Biomas nasceu da compreensão de que a árvore pode e deve ser utilizada na propriedade rural para atender às múltiplas necessidades do produtor rural e às demandas da natureza. O Brasil é um país continental com imensa e reconhecida biodiversidade pouco explorada e pouco conhecida e uma legislação ambiental avançada, que visa garantir que o país se mantenha como um importante expoente mundial em termos de produção agropecuária, aliada à conservação ambiental.

Por isso, o Projeto traz respostas a duas questões: como intensificar o uso da árvore na propriedade rural e como adequar a propriedade rural às exigências e regras da legislação ambiental que estabelece regras específicas para o uso de Áreas de Preservação Permanente (APPs); Áreas de Reserva Legal (ARLs); e Áreas de Uso Alternativo (AUAs).

Para chegar a essas respostas, em todos os seis biomas brasileiros foram escolhidas propriedades rurais nas quais foram implantados experimentos propostos por uma rede de mais de 400 pesquisadores de centenas de instituições de pesquisa e ensino.

Os resultados das pesquisas denotam a necessidade de se observar as especificidades de cada bioma: enquanto na Amazônia plantios florestais são promissores, em algumas áreas campestres do Pampa atenção deve ser dada ao componente herbáceo.

Já no Bioma Mata Atlântica o volume de chuvas anual permitiria a exploração de culturas durante praticamente todo o ano, e no Bioma Caatinga a lógica de exploração em uma curta janela de chuvas impede que se possa adotar os mesmos procedimentos. Há, enfim, alternativas técnicas para cada condição ambiental.

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Esta foi uma particularidade do Projeto Biomas: observar como a diversidade de condições ambientais deve ser considerada quando os objetivos incluem a conservação dos recursos naturais. Considerar a diversidade de opiniões também é outro ponto importante do Projeto.

Provocar um profundo diálogo entre o setor agropecuário e os ambientalistas, discutindo caminhos alternativos e que pudessem balancear mais adequadamente os interesses de ambos os setores é uma de suas grandes vertentes.

Longe de esgotar o tema, o Projeto Biomas desenvolveu, ao longo de seus dez anos de execução, a exposição de alternativas de manejo da flora nativa em sistemas de produção, ou mesmo em sistemas voltados à restauração. Esta é uma pequena contribuição diante do enorme desafio que a produção sustentável tem a enfrentar.

O que se viu

Após uma década em execução, o Projeto Biomas apresentou seus principais resultados durante evento virtual promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e pela Embrapa. No mesmo dia, foi lançado o Projeto Pravaler, iniciativa da CNA que também contou com a participação da Embrapa e teve como objetivo apoiar ações de regularização ambiental conforme definido no novo Código Florestal.

A plataforma WebAmbiente, que oferece ao produtor rural informações sobre como recuperar áreas com algum nível de degradação e promover a adequação ambiental da paisagem rural, auxiliou o Projeto, alimentando os dados gerados.

Além da parceria Embrapa/CNA, o Biomas contou com o apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da John Deere do Brasil, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), entre outros.

“São grandes os resultados nos biomas brasileiros, com 400 pesquisadores atuando em busca de soluções para a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga, a Amazônia, o Pantanal e o Pampa”, destacou o presidente da Embrapa, Celso Luiz Moretti. Ele chamou atenção como exemplo de bons resultados no Bioma Mata Atlântica a pimenta rosa e o café sombreado por seringueira, ambos apoiados pelo Projeto e desenvolvidos pelo Incaper.

“Esse foi um trabalho que fizemos com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) que aumentou em 30% o rendimento da pimenta rosa, que pode deixar de ser uma atividade extrativista para se transformar em uma atividade comercial. E o café sombreado pela seringueira, que atingiu elevadas notas de qualidade, abriu caminho para maior agregação de valor ao produto”, afirmou Moretti.

O Biomas oferece conhecimento técnico e científico para ajudar o produtor a recompor um eventual passivo ambiental na propriedade e cumprir o Código Florestal. “Os resultados se refletem na oferta de soluções tecnológicas necessárias à recuperação ambiental. O conhecimento está disponível, agora precisamos entregá-lo ao produtor rural”, afirmou.

Agora é pra valer!

O Projeto Pravaler, criado a partir das iniciativas desenvolvidas pelo Projeto Biomas, é uma iniciativa que mostra ao produtor, na prática, como cumprir a legislação ambiental com sustentabilidade na produção.

O objetivo é integrar ações com os órgãos ambientais e com as federações da agricultura, buscando facilitar a adequação dos passivos ambientais e a implantação do Programa de Regularização Ambiental (PRA) nas propriedades rurais. Essa iniciativa vai permitir que o produtor possa adequar a propriedade à legislação ambiental e ainda obter possibilidade de retorno econômico.

O pesquisador Felipe Ribeiro, da Embrapa Cerrados, apontou que, com as ferramentas e informações oferecidas, a ideia é que o produtor se habilite a fazer o diagnóstico, tomar a decisão sobre o que vai plantar, realizar o plantio e monitorar no sentido de cumprir a tarefa de recompor a área.

Ele observou que o Pravaler, em termos de regularização ambiental, caminha para essa situação. “Temos que olhar não só a recomposição de APP e ARL, mas ainda a recuperação do ambiente produtivo. Por isso estamos muito preocupados em olhar a propriedade como um todo, fazer a regularização ambiental produtiva, de modo que consigamos entregar ao produtor uma ferramenta que o auxilie não apenas na regularização ambiental, mas que também possa ajudá-lo a obter maior retorno econômico na propriedade e a conservar solo, água e biodiversidade”, expõe.

“O Projeto recoloca o produtor rural dentro da legalidade, proporciona uma integração cada vez maior entre produção e preservação, com soluções para que o País continue a acessar mercados internacionais com produtos cada vez mais sustentáveis”, afirmou o pesquisador.

Resultados

O coordenador nacional do Projeto Biomas, Alexandre Uhlmann, apresentou alguns dos principais resultados de 10 anos de pesquisas nos seis biomas brasileiros. O projeto foi iniciado a partir da assinatura de convênio entre a Embrapa e a CNA em maio de 2010.

“Naquele tempo, o foco era utilizar a árvore como elemento destinado ao consórcio em sistemas produtivos, além de restauração de Áreas de Reserva Legal (ARL) e de Preservação Permanente (APP). A equipe do projeto identificava, principalmente nas espécies nativas, um potencial adormecido, e muito da pesquisa teve esse foco. No final, os PRAs se encaixaram como uma luva no desenvolvimento do projeto”, lembrou Uhlmann, que é pesquisador da Embrapa Florestas (Colombo, PR).

Ele relata as dificuldades de lidar com os diferentes ambientes e espécies de cada bioma e o desafio único de utilizar a árvore em sistemas de produção ou em modelos de restauração, associado a espécies não-lenhosas.

Para observar as especificidades de cada bioma, foi escolhida uma propriedade rural para implantação dos experimentos – em média, foram 10 a 20 experimentos em cerca de 30 hectares. “Plantar árvores não é uma tarefa simples, mas ao longo dos anos, nossos experimentos foram crescendo, sob os cuidados dos pesquisadores e da equipe de campo, e gradativamente os resultados foram aparecendo”, comentou.

No Bioma Mata Atlântica, o cultivo da aroeira-pimenteira, um arbusto que produz a pimenta rosa, vinha sendo praticado principalmente de maneira extrativista e sem critério de seleção de materiais.

Liderados pelo Incaper, os pesquisadores desenvolveram modelos de plantio que melhoraram o sistema de produção da pimenta rosa, proporcionando aumento de produtividade e da renda dos produtores da região. Uhlmann também destacou a importância das ações de difusão e transferência de tecnologia a partir dos experimentos na Fazenda São Marcos, em Soretama (ES).

Áreas de Preservação Permanente

Para o Bioma Cerrado, o desafio foi encontrar modelos de recomposição de APP e ARL. “A pergunta que fizemos, e que foi respondida, é: qual o método mais eficaz – plantar mudas ou semear sementes?

No Cerrado, que tem espécies de capins e arbustos, semear é a forma que tem mostrado bons resultados. A semeadura é mais barata, pois até mesmo máquinas agrícolas podem ser utilizadas, reduzindo a mão de obra braçal”, disse Alexandre Uhlmann, ao apontar a viabilidade da semeadura direta, atestada pelos experimentos conduzidos na Fazenda Entre Rios, no Distrito Federal. Também mereceram destaque as ações de aplicação dos conhecimentos gerados, como cursos, dias de campo e reuniões técnicas.

Alguns resultados já podem ser observados, como a sobrevivência das mudas emergentes da cagaiteira maior que 90%, apesar do pouco desenvolvimento em altura. Outro ponto relevante é que alguns indivíduos de aroeira cresceram mais de sete metros, enquanto o barueiro e o jatobazeiro apresentaram indivíduos maiores que cinco metros, todos observados com presença de floração e frutificação.

A confirmação que a altura das espécies plantadas via semeadura direta tem crescimento similar àquelas plantadas por meio de mudas também foi um resultado de destaque.

Por fim, como existem áreas naturais próximas àquela em restauração e as espécies de atração para a fauna como a lobeira já se desenvolveram, foram observadas mais de dez espécies que não foram plantadas oriundas da regeneração natural. Dentre elas, podemos destacar a macaúba, pimenta-de-macaco e assa-peixe.

Esses resultados são muito animadores, pois decorrem de uma técnica relativamente barata de recomposição, de R$ 4 mil a R$ 5 mil por hectare, dependendo principalmente do equipamento usado na semeadura e da dificuldade de obtenção das sementes de espécies nativas utilizadas.

Parâmetros

A obtenção de parâmetros estruturais das formações vegetais como indicadores do grau de degradação das áreas e da possibilidade de reversibilidade foi um importante resultado das pesquisas no Bioma Pantanal, com experimentos na Fazenda Santo Expedito, em Corumbá (MS).

“Esse pode ser um parâmetro muito importante para indicar áreas que precisam ser adequadas mediante restauração”, disse o pesquisador Alexandre Uhlmann, que também citou o trabalho com tecnologias de produção de mudas e sementes.

No Bioma Caatinga, o uso de espécies de árvores nativas em sistemas, promovendo a intensificação produtiva, levou ao aumento da produtividade. “Plantamos experimentos em uma sequência de anos secos. Mesmo assim, foi possível consorciar as espécies arbóreas nativas, cuja adaptação permite a sobrevivência à seca, com culturas anuais, resultando em ganhos de produtividade na curta janela de chuvas que o sertanejo tem disponível”, comentou Uhlmann, em referência aos experimentos na Fazenda Triunfo, em Ibaretama (CE).

Já no Bioma Amazônia, as pesquisas na Fazenda Cristalina, em São Domingos do Araguaia (PA), focaram no uso de espécies florestais nativas em sistemas de produção florestal, restauração e sistemas agrícolas integrados que contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa.

“A integração das árvores com o sistema agrícola é uma novidade na região que trabalhamos, onde as pastagens extensivas são regra. O uso da árvore na paisagem resulta numa excelente opção, que contribui para o ganho produtivo e aumenta a fixação de carbono na forma de lenha e de carbono no solo”, disse, destacando o desempenho promissor do paricá, espécie nativa amazônica.

E no Bioma Pampa, os experimentos na Fazenda Caveiras, em Dom Pedrito (RS), não tiveram êxito significativo com as espécies arbóreas, mas a recuperação de campos nativos rendeu bons resultados mesmo após o cultivo agrícola, com a identificação das potencialidades e desafios de adequação ambiental da região.

Singularidade

Como conclusão, o coordenador de Sustentabilidade da CNA, Nelson Ananias, elencou os aspectos que marcam a singularidade do Projeto Biomas, como a observação das diferenças impostas por ambientes distintos, obrigando a diferentes abordagens para um mesmo problema; a agregação de um grande grupo de pesquisadores, reunindo mais ideias; a quebra do paradigma de que a árvore não auxilia a produção, uma vez que os sistemas consorciados testados geraram bons modelos ou apontaram um caminho potencial; capacitação e transferência de tecnologia em todas as regiões de atuação e mobilização para discussão da aplicação da lei ambiental.

O Biomas deixa um legado de infraestrutura de pesquisa muito bom que contribui para o avanço do conhecimento científico. No mundo em que estamos, de economia de baixo carbono, o desmatamento é uma das maiores fontes de emissões e as florestas são a maior solução para a economia de baixo carbono, não de forma isolada, mas integradas à paisagem rural.

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