Tecnologia digital – O futuro chega ao campo

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Um dos desafios vigentes para quem trabalha no agronegócio é alimentar a população mundial, que alcançará 09 bilhões de habitantes em 2050, segundo previsões. Em prol do futuro, empresas desenvolvem e pensam uma realidade populacional com menos desperdício, melhor distribuição de recursos, fontes de energia renováveis, entre outros pontos

Estamos vivendo uma nova revolução de valores e de requisitos para a sustentabilidade. O Agro 4.0 já é realidade nos ecossistemas de inovação e em parte do agronegócio, com franca expansão no Brasil. Neste cenário, a tecnologia digital é essencial, tanto para o monitoramento no campo como no aproveitamento das informações (Big Data) para a tomada de decisões com suporte em ampla base de conhecimento (data analysis), no funcionamento de equipamentos e implementos inteligentes (IoT + IA) e no tratamento de imagens coletadas e transmitidas em tempo real (5G).

Estes parâmetros também podem ser estendidos para qualificar a regulação desde a produção até a comercialização, inserindo ainda a rastreabilidade nas cadeias de produção. Mas, infelizmente, segundo Antônio Álvaro Duarte de Oliveira, pesquisador científico do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e diretor presidente da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (FUNDEPAG), no Brasil faltam investimentos para a conectividade no campo e a abordagem estratégica das empresas.

Desafios

Para Silvia Massruhá, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária, diante dos desafios apresentados na agricultura, principalmente o de aumentar a produção agrícola sem ampliar a área plantada significativamente torna-se premente o uso cada vez mais intenso de novas tecnologias para permitir os ganhos de produtividade de forma sustentável.

Nesse cenário, surgem novas oportunidades para a utilização de inovações na área de tecnologias da informação e da comunicação (TIC). As tendências apontam que o setor agropecuário demandará novas TIC para gestão de dados, informações e conhecimentos em todas as etapas da cadeia produtiva em uma nova infraestrutura onde os mundos físico e digital estão totalmente interconectados.

Neste contexto, a mineração de dados permite extrair associações e conhecimento a partir de grandes volumes de dados; a computação de alto desempenho utiliza supercomputadores ou vários computadores conectados e operando em conjunto, visando diminuir o tempo de processamento de sistemas complexos informatizados; a modelagem e a simulação permitem o uso de modelos matemáticos para geração de cenários e fenômenos que possam ser simulados no computador; a otimização procura utilizar modelos que levem à solução ótima de um problema; o sensoriamento remoto permite a obtenção de dados relativos à superfície terrestre por meio de sensores remotos como os satélites e, finalmente, o geoprocessamento e os sistemas de informação geográficas (GIS) possibilitam o processamento de dados georreferenciados como, por exemplo, informações cartográficas.

Silvia enfatiza que a troca de dados e informações, em toda a cadeia da produção, requer infraestrutura de comunicação rápida e adequada. A agricultura digital se baseia em conteúdo digital por meio do processamento e análise de grande volume de dados que vêm sendo produzidos em todas as áreas que contribuem com o desenvolvimento agrícola, como a biotecnologia, as mudanças climáticas, as geotecnologias, as ciências agrárias e a nanotecnologia para gerar conhecimentos que serão aplicados em todos os elos da cadeia produtiva, desde a pré-produção, passando pela produção até a fase de pós-produção.

O Agro mais digital que nunca

Para o agronegócio, o uso das tecnologias vai permitir acompanhar toda a cadeia de produção. A pesquisadora Silvia Massruhá explica que na fase da pré-produção existem os avanços em biotecnologia e bioinformática para melhoramento genético com o objetivo de produzir animais mais resistentes a doenças e com maior produtividade de carne.

No melhoramento de plantas, além de serem mais resistentes a doenças, também serão mais resilientes às mudanças climáticas e ao estresse hídrico. Na biotecnologia e bioinformática, o uso das tecnologias de bigdata/analytics, em conjunto com as pesquisas genéticas e utilizando o enorme volume de dados provenientes das ciências Ômicas, relacionadas a estudos de DNA (genômica), RNA (transcriptômica), proteínas (proteômica) e metabólitos (metabolômica), irão proporcionar a descoberta de genes que controlam características complexas e suas funções que, em conjunto com estudos de interações gênicas, deverão promover avanços para impactar em diversas áreas da produção animal e vegetal, como o manejo, a nutrição, a resistência a doenças e ao estresse hídrico, a sanidade e o melhoramento genético, resultando em produtos mais sustentáveis, com melhor qualidade nutricional e segurança.

Na fase de produção, o estabelecimento agropecuário será massivamente conectado, monitorado e automatizado. Sensores dispersos por toda a propriedade e interligados à internet (Internet das Coisas) gerarão dados em grande volume (Big Data) que necessitarão ser filtrados, armazenados (computação em nuvem) e analisados.

A força de trabalho humana não será capaz de gerenciar essa quantidade de dados e necessitará do auxílio de algoritmos mais aprimorados por meio de técnicas de inteligência computacional (Computação Cognitiva).

Após a análise, o ciclo é fechado por meio de comandos remotos aos tratores e implementos agrícolas que, munidos de sistema de posicionamento global (GPS), farão intervenções pontuais apenas onde necessário para otimizar custo, produção e impacto ao meio ambiente.

A sociedade, por meio das redes sociais, poderá obter informações detalhadas do processo produtivo, impactos e propriedades nutricionais em seus dispositivos móveis. Na fase da pós-produção, as novas tecnologias irão proporcionar a comunicação altamente integrada e automação das mais variadas atividades nos setores agroalimentar e agroindustrial.

Sistemas de predição irão prever as safras agrícolas e os riscos envolvidos; sistemas avançados de monitoramento e controle informarão aos consumidores sobre segurança e sustentabilidade dos alimentos; sistemas de rastreabilidade proporcionarão o acompanhamento do escoamento da produção desde a fazenda até os centros de distribuição, evitando desperdícios; informações de mercado e variações econômicas serão processadas e orientarão os processos de logística e produção, dentre muitas outras inovações e avanços.

Transição

Para Antônio Álvaro, a agricultura digital, ao contrário do que se pensa, é viável para o pequeno agricultor, cuja produção tem maior valor agregado. “Nestes casos, a implantação das tecnologias digitais tem a vantagem da maior precisão devido às restrições de área, manejo e equipamentos”, considera.

O tema agricultura digital está em fase de transição, mas já se pode observar retornos significativos, como detalha o pesquisador da Embrapa, Ladislau Martin Neto: “A partir do momento que o produtor tem a possibilidade de receber dados de sua propriedade com mais agilidade, a tomada de decisão referente a sua plantação também se torna mais eficiente e ágil, proporcionando a diminuição de usos de agrotóxicos e, consequentemente, reduzindo os impactos ambientais”.

Silvia complementa que as soluções poderão ser aplicadas de forma diferenciada, de acordo com a necessidade da plantação ou do rebanho. “Por exemplo, na irrigação inteligente, sensores de solo indicarão os talhões que necessitam de mais água, evitando o desperdício ao se irrigar toda a propriedade na mesma taxa. O mesmo raciocínio pode ser empregado no uso de fertilizantes que serão aplicados em solos com maior carência. Com relação ao rebanho, será calculado o ponto ideal de abate de cada animal evitando sua permanência desnecessária na propriedade, bem como promovendo a retenção dos animais que ainda não atingiram o peso adequado, evitando prejuízo para o produtor. Além disso, as máquinas agrícolas virão com sensores que indicarão a necessidade de manutenção, prevendo problemas futuros e otimizando o uso do maquinário, evitando que o mesmo fique inativo em fases de plantio e de colheita”, avalia.

Ainda segundo ela, o retorno do investimento começa assim que o produtor passa a ter uma informação mais precisa de sua propriedade, como melhor período para o plantio, melhor época para aplicação de agroquímicos, uso de máquinas e implementos, além de previsão de data de colheita e volume da produção, podendo tomar decisões com mais segurança sobre sua propriedade e comercialização de seus produtos.

Tecnologias focadas na precisão

O conceito-chave que vem da agricultura de precisão é o manejo com variabilidade espacial, fazendo isso com a máxima eficiência e conhecendo as características do solo. A maioria das análises ainda são feitas por avaliação demonstrativa, pela média das amostras, que norteiam as decisões do todo. “O que se pressupõe é que com a chegada de equipamentos da agricultura digital esse processo vai ser mais fácil, eficiente e ágil”, avalia o pesquisador.

Cientistas brasileiros desenvolveram um equipamento com tecnologia de última geração que levará a análise de solos de forma rápida, limpa e economicamente acessível ao produtor rural. A inovação não gera resíduos químicos e é capaz de analisar 1.500 amostras por dia, fornecendo dados de quantidade de carbono orgânico do solo, textura (teores de areia, silte e argila) e pH.

A nova tecnologia é o primeiro resultado da parceria do ecossistema de inovação da Embrapa Instrumentação (SP) com uma startup voltada ao agronegócio (agtech). Para o pesquisador Ladislau Neto, “independentemente se o produtor é de pequeno, médio ou grande porte, a acessibilidade à agricultura digital vai primar pela eficiência na gestão da propriedade, com o uso da ferramenta adequada, para o produtor poder se manter no mercado. Hoje já percebemos que se torna cada vez mais fácil estar conectado, o que ainda não acontece 100% no campo, mas acredito que em breve essas dificuldades serão resolvidas”, prevê.

Startups chegam para inovar

Já é de conhecimento geral que a união do ecossistema de startups focadas no agronegócio e de grandes empresas do setor é promissora e pode gerar grandes frutos. O Brasil possui um grande potencial para crescer ainda mais neste segmento.

No ano de 2018, por exemplo, mesmo que conservador, o setor agro impulsionou um avanço no PIB (Produto Interno Bruto) bastante positivo, crescendo 2,5% e registrando R$ 61,9 bilhões. Segundo o IBGE, a alta se deve principalmente à lavoura, que teve safra relevante no terceiro trimestre e também pela produtividade refletida na relação entre produção e área plantada.

Atualmente, grande parte do trabalho de implantação da agricultura digital é realizado pelas startups, que são empresas jovens que buscam a inovação em qualquer área ou ramo de atividade, procurando desenvolver um modelo de negócio escalável e que seja repetível.

As startups ligadas ao agronegócio são denominadas AgTechs. De acordo com o 2º Censo AgTech – Startups Brasil, realizado pela AgTechGarage, os maiores investimentos realizados pelas AgTechs são no desenvolvimento de soluções para as culturas de soja (46%), milho (41%), pecuária de corte (30%), cana-de-açúcar (35%), café (25%), pecuária de leite (20%), citricultura (18%), culturas florestais (15%), piscicultura (11%), suinocultura (10%) e avicultura (10%). Além dessas, também se tem soluções para horticultura, fruticultura, algodão, agricultura orgânica e agroecológicos e produção de equinos.

Um dos desafios vigentes para quem trabalha neste meio, por exemplo, é alimentar a população mundial que alcançará 9 bilhões de habitantes em 2050, segundo previsões. Em prol do futuro, empresas desenvolvem e pensam uma realidade populacional com menos desperdício, melhor distribuição de recursos, fontes de energia renováveis, entre outros pontos.

Grandes nomes do setor público e privado de todo o Brasil trabalham em prol desta demanda, seja na conexão de investidores com AgTechs, investimento em pesquisa ou como AgTechs no desenvolvimento de soluções para o campo.

A partir das tecnologias desenvolvidas por elas, o produtor tende a ter um manejo muito mais sustentável, com o uso cada vez mais racional de insumos agrícolas. “Com a boa e velha ideia de produzir mais gastando menos, agora há fórmulas mais específicas para cada situação, produção e tipo de produtor. É necessário que os produtores conheçam as tecnologias disponíveis, como utilizá-las e a melhor opção para superar os seus desafios”, pontua Nilson Vieira Junior, engenheiro agrônomo e doutorando pela ESALQ USP.

As regiões que têm se destacado na tecnologia digital são aquelas onde a agricultura comercial é mais desenvolvida, com as grandes fazendas do MATOPIBA e Mato Grosso, além dos grandes empreendimentos do setor sucroenergético. “Essa evolução tem auxiliado os produtores a melhorarem sua rentabilidade por meio do uso mais racional de insumos”, volta a ressaltar.    

Muitas soluções têm surgido a partir da biotecnologia e impulsionado a agricultura digital, principalmente na adaptação de espécies a diferentes condições climáticas e a produção de alimentos mais nutritivos. Assim, todas as culturas são beneficiadas com o avanço das tecnologias na agricultura.

Quer ser digital, como por onde começo?

A agricultura digital é implantada por um conjunto de tecnologias que trabalham cooperativamente. Atualmente a Embrapa, incentivada pelo estudo realizado pelo BNDES e MCTIC “Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil” e pela chamada “BNDES Pilotos de IoT”, está investindo em implantar tecnologias que utilizem a Internet das Coisas.

Silvia Massruhá afirma que a Internet das Coisas torna possível monitorar e gerenciar operações a centenas de quilômetros de distância, rastrear bens que cruzam o oceano ou detectar a ocorrência de pragas ou doenças na plantação. “Para a implantação de IoT é necessário cumprir as etapas do processo que são: coleta do dado ou informação, transmissão do dado para um centro de armazenamento e processamento, realização da análise do dado e a consequente emissão de um alerta, um diagnóstico, um monitoramento ou outra informação a partir da análise realizada”.

Em cada uma das fases do processo é necessário um conjunto de tecnologias. Para a coleta do dado pode-se utilizar sensores, satélites, drones, câmeras e outros; para a transmissão dos dados são necessárias redes de transmissão, como por exemplo, redes cabeadas, de celular, Low Power Wide Area, ou rede de curto alcance e alta ou baixa banda.

Para o processamento ou análise do dado é necessária tanto a infraestrutura computacional de hardware como computadores, armazenadores de dados, fontes de energia e plataforma de computação em nuvem, quanto a infraestrutura de software como, por exemplo, algoritmos de inteligência computacional, analytics, bancos de dados, computação de alto desempenho e geoespacialização.

Um ponto muito importante destacado pela chefe da Embrapa é a garantia da segurança da informação por meio de algoritmos de criptografia, assinatura digital, blockchain, firewall e formas de controle de acesso. “Uma vez que o dado é processado, a análise é retornada para o campo, sendo necessário possuir os equipamentos que irão receber a informação. Esses equipamentos podem ser atuadores embarcados em máquinas agrícolas para disparar a realização da colheita, irrigação ou aplicação de defensivos; relatórios de diagnóstico enviados para o celular para tomada de decisão ou uma indicação que inicia um processo automático na fazenda, por exemplo”.

Mas Silvia ressalta que o produtor não precisa ter toda essa infraestrutura por sua própria conta. “Na fazenda, o produtor deverá ter instalado os equipamentos de coleta de dados, transmissão para o centro de processamento e os de recepção da análise realizada para que ação possa ser executada em sua propriedade. Existem empresas que prestam serviços e, nesse caso, elas vão prover a parte de infraestrutura computacional e de processamento dos dados. Essas empresas também orientam na instalação dos dispositivos necessários”, assinala.

Direto do campo

A tecnologia digital já chegou para o produtor Frederico Rodrigues Quirino, sócio proprietário da Fazenda Saco Grande, do Grupo Planeje, localizada em Paracatu/Unaí (MG). Com uma área de 720 hectares irrigados, ele possui as seguintes produtividades: soja 78 sc/ha, feijão 53 sc/ha e milho-semente 200 sc/ha.

Frederico está dando os primeiros passos para ingressar na tecnologia digital, já tendo implantado em sua propriedade máquinas com piloto automático, aplicação a taxa variável e drones para mapear as áreas. “A digitalização da fazenda veio para nos ajudar na tomada de decisão, com mais informações e detalhes para nos garantir segurança, desde o plantio até a colheita. A partir do momento que adotamos uma tecnologia que oferece mais detalhes, tivemos um significativo aumento em nossa produtividade, mas também aumentamos o investimento em fertilidade, manejo e genética, ou seja, não é o uso isolado das ferramentas digitais, mas todo o pacote tecnológico envolvido”, afirma o produtor.

Manejo

Além de produtor, Frederico também é engenheiro agrônomo e consultor, o que facilita o manejo dessas tecnologias em sua fazenda. Ainda assim, ele decidiu se especializar, fazendo curso para aprender a operar o drone e trabalhar o imageamento.

Segundo Frederico, “é mais aconselhável terceirizar a operação desses sistemas tecnológicos, senão o produtor acaba acumulando muitas funções, além de pensar no mercado e no planejamento de todas as operações. Eu tive que fazer um curso em Ribeirão Preto (SP) só para operar o drone e trabalhar as imagens. Já a parte de mapeamento do solo e fertilidade eu terceirizo, porque é muita coisa para fazer. As outras análises, as próprias máquinas fazem e eu só interpreto”, diz.

Dificuldades

A tecnologia digital no campo proporciona ao produtor diversos mapas e informações, desde umidade do solo até a fertilidade e colheita, e para cada um existe uma plataforma. O desafio enfrentado, segundo o produtor, é a possibilidade de integrar todos os mapas em apenas uma plataforma, podendo cruzar os dados em um só relatório.

Já existem plataformas para isso, mas devido às máquinas serem de diversas marcas e fabricantes, a plataforma não consegue identificar todas. Portanto, o setor segue em fase de adaptação para facilitar cada vez mais a vida do homem no campo.

Cobertura

Para a tecnologia digital chegar ao campo de vez, é necessário uma cobertura de telefonia celular e de satélite disponível no local, o que hoje é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo produtor.

Frederico utiliza uma constelação de satélites americanos e paga um valor pelo sinal (US$ 1.295 por máquina). Atualmente ele possui três máquinas, que equivalem, em média, ao ano, a mais de R$ 15,000.00.

Custo x beneficio

O produtor deixa um recado: “vale a pena investir em tecnologia digital no campo, e quem não o fizer, daqui a cinco anos ficará para trás. Levando em consideração o pequeno produtor, é mais difícil essa integração porque o investimento ainda é alto. Mas, acredito que com o tempo isso vai se tornar mais acessível, assim como aconteceu com o piloto automático”, prevê Frederico.

Silvia concorda com o produtor: “As tecnologias digitais podem ser utilizadas em fazendas de qualquer tamanho e de qualquer cultura. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) avaliou o efeito de novas tecnologias em propriedades familiares, indicando que mesmo nas pequenas, a adoção de automação de processos e a mecanização aumentam consideravelmente sua produtividade”.

De acordo com o estudo do BNDES, intitulado “Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil”, é importante considerar que os maiores produtores são os primeiros a adotar novas tecnologias no processo produtivo por causa da grande escala de produção e da capacidade de investimento.

Entretanto, para os pequenos e médios, as associações e cooperativas do setor fazem o papel de fomentar a adoção de novas tecnologias, organizando grupos ou consórcios para compartilhamento de soluções (por exemplo, de conectividade), maquinários, entre outras. É relevante considerar os diferentes modelos de negócios que podem ser adotados para viabilizar o uso de novas tecnologias geradoras de saltos de produtividade não só para os grandes produtores, mas também para os médios e pequenos, de maneira a incrementar a eficiência do Brasil no setor.


RETRANCA

Sunalizer aposta em tecnologias modernas

O principal objetivo das diversas startups que existem no mercado é aumentar a produtividade agrícola por meio de tecnologias modernas, como banco de dados, softwares e hardwares, com os quais é possível coletar, processar e armazenar uma grande quantidade de informações.

Essas ferramentas permitem melhores resultados em relação à qualidade, quantidade e, portanto, ao retorno financeiro da produção. Ou seja: a maioria das soluções tem a finalidade de fazer mais com menos, facilitando a tomada de decisões a partir de informações mais precisas, atualizadas e sempre disponíveis.

Nesse sentido, Diego Loureiro, CEO da empresa Sunalizer destaca algumas vantagens do processo de modernização:

* Planejamento e controle: que cultura plantar, qual o melhor solo para um determinado produto, qual a melhor época para o plantio, como fazer o correto manejo da cultura, entre outros aspectos. Com a implantação de um sistema de gestão eficiente, é possível tomar decisões mais rápidas e de maneira eficiente

* Monitoramento e operação: quanto de adubo é necessário aplicar? Quais áreas necessitam de mais nutrientes? Quanto de herbicida é necessário aplicar, em quais áreas? Em que zonas existe um déficit hídrico? Nesse cenário, os drones têm tomado uma relevância importante, já que conseguem, por meio de fotografias áreas, interpretação de imagens e inteligência artificial, entregar ao produtor soluções em tempo real e de alta qualidade.

* Controle financeiro: controlar os gastos com insumos, estoque e consumo de maneira muito rápida e eficiente.

* Armazenamento da informação: com a coleta, a análise e o armazenamento dos dados, além da possibilidade de manter um histórico do negócio é possível fazer análises estatísticas e identificar tendências de mercado.

* Energia solar: com a instalação de painéis fotovoltaicos é possível reduzir a quase zero a conta de energia elétrica, permitindo melhorar sua competitividade por meio da redução dos custos de energia necessários durante o processo produtivo.

Evolução da tecnologia no agronegócio

De maneira simples, o agricultor migrou do papel para o computador e do computador para o celular, aumentando sua liberdade de acesso à informação em tempo real, 24h por dia e em praticamente qualquer lugar.

Atualmente, segundo Diego Loureiro, as alternativas tecnológicas são muitas, mas a maioria está focada na coleta de informação, monitoramento e controle dos negócios, podendo ir de uma solução simples, como avaliar o clima com drones e aviões, até a análise da plantação por programas de inteligência e aprendizado artificial.

“O principal avanço proporcionado pela “Agricultura 2.0” foi a facilidade de acesso à informação de alta qualidade, o que permitiu ao produtor agrícola tomar suas decisões mais rapidamente e de forma precisa durante todas as etapas do processo produtivo. Assim, os produtores que tomavam decisões de forma subjetiva e baseadas em sua experiência de vida, passaram a ter aliados tecnológicos objetivos, que entregam a eles facilidade de acesso à informação e incremento em sua eficiência, garantindo uma produção sem desperdícios e, consequentemente, um produto de melhor qualidade para o consumidor”, pontua o especialista.

Entre as muitas soluções tecnológicas existentes no Brasil e no mundo, ele destaca:

Drones e aviões não tripulados: fazem um levantamento fotográfico completo de toda a propriedade, fornecendo dados importantes sobre o número, a saúde dos cultivos e o uso da terra, o que permite um acompanhamento completo do negócio − trabalho antes caro e demorado.

Fotointerpretação: com a análise de imagens de alta resolução é possível identificar pragas muitas vezes em fase inicial, que não poderiam ser percebidas a olho nu.

IoT (Internet das Coisas): permite aos equipamentos gerenciarem seu próprio setor. É o caso das colhedeiras inteligentes, que se ajustam ao melhor caminho; dos equipamentos de irrigação com sensores meteorológicos, que ligam e desligam sozinhos quando necessário; dos sensores de solo ou de água, que enviam alertas sobre a falta ou excesso de algum nutriente específico para cultura; entre outros.

Painéis solares: reduzem gastos com energia, melhorando a competitividade por meio da redução deste custo de produção.

Tendência imediata

A previsão, em médio e longo prazos, é de que cada vez mais essas tecnologias estejam inseridas na rotina do campo, facilitando o trabalho e maximizando os resultados. “Hoje, no mercado agrícola, existe uma tendência muito forte para a automatização de processos. No entanto, o que temos visto é que a energia solar está em destaque no Brasil, devido a ser altamente viável, de fácil implantação e com boas condições de financiamento (na maioria dos casos, possibilitado pela própria economia de energia), além de permitir aos usuários uma redução ou eliminação do risco de aumento da energia no futuro”, avalia Diego Loureiro.

Ainda segundo ele, a implantação de métodos tecnológicos pode beneficiar qualquer negócio, bastando avaliar bem os problemas e os resultados que se deseja obter, bem como a disponibilidade de capital para fazer o investimento.

Custo

Diego Loureiro diz que os custos de implantação das novas tecnologias dependem muito do que será implementado, já que existem desde aplicativos grátis para celulares até colheitadeiras inteligentes que fazem o trabalho praticamente sozinhas. “No ramo tecnológico, praticamente não existe limite para os investimentos: dependerá da disponibilidade de capital de cada agricultor e dos resultados que se pode obter com a implementação de cada tecnologia”, aponta.

Entretanto, como em qualquer tomada de decisão, a parte mais importante do processo é a análise de viabilidade preliminar, na qual poderá, com um baixo investimento, definir a melhor solução para cada caso e dimensionar corretamente a alternativa escolhida.

“No caso específico da energia solar, a parte mais importante está na definição da quantidade ideal de painéis a serem instalados e o quanto realmente esse sistema produzirá de energia, para, a partir daí, avaliar qual será o investimento estimado e o retorno financeiro esperado em cada caso. Uma vez que se comprove a viabilidade do sistema, é necessário realizar todos os trâmites legais necessários junto à concessionária de energia elétrica e escolher bem a empresa que instalará o sistema e os equipamentos”, ressalta Loureiro.

O especialista destaca que, em seus 15 anos de experiência na América Latina, ele pôde constatar que o erro mais comum cometido pelas empresas e produtores é acreditar que já sabem o suficiente e, com isso, evitarem a assessoria correta antes tomar as decisões − o que, na maioria das vezes, faz da solução um problema.

“A melhor forma de evitar os erros é, sem dúvida, buscar a assessoria ideal para cada problema, levar em consideração as análises feitas por um especialista e, sempre que possível, ter acompanhamento durante o processo. No entanto, muita gente ainda costuma ver esse tipo de ajuda como um gasto e não como investimento, até quando começam a ter problemas durante o processo de implementação ou operação”, lamenta Loureiro. 


Siagro traz novidades

O Simpósio Nacional de Instrumentação Agropecuária – SIAGRO 2019 será realizado entre 26 e 28 de novembro, na Embrapa Instrumentação, em São Carlos (SP). O fórum, voltado à ciência, inovação e mercado, vai abordar temas como Agricultura de Precisão, Nanotecnologia, Automação, Bioeconomia, Agricultura Digital, entre outros, em palestras e mesas redondas.

A programação inclui o “Business Day”, no qual ocorrerão demonstrações de tecnologias inéditas, com representantes dos setores público e privado, investidores (venture capitals) e profissionais de comunicação.

A aplicação multidisciplinar das engenharias, física, química e TICs à agropecuária – com 35 anos de contribuições para a ciência e soluções para o produtor rural – é um dos diferenciais do evento.

É a oportunidade de interação com empresas, startups, universidades e instituições de ciência e tecnologia do Brasil e do exterior.