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Vassourinha-de-botão

Núbia Maria Correia
Doutora e pesquisadora de Biologia e Manejo de Plantas Daninhas – Embrapa Cerrados
nubia.correia@embrapa.br

Os principais impactos da vassourinha-de-botão estão relacionados à perda na produtividade de grãos e interferência na colheita mecanizada. A perda de produtividade pode ser altíssima, dependendo do nível de infestação e da espécie de vassourinha-de-botão da área.

Pesquisas desenvolvidas em condições de campo no Cerrado já relataram perdas próximas de 80% para sorgo e de 40% para soja. O sorgo é mais sensível, pois iniciará o seu crescimento com a competição de plantas rebrotadas de vassourinha, que foram cortadas durante a colheita da soja, além da ausência de herbicidas seletivos para o sorgo capazes de suprimir o crescimento da vassourinha-de-botão.

Plantas de vassourinha-de-botão, que não foram cortadas, encerrando o ciclo
Foto: Núbia Correia

Outro problema ocasionado é a interferência na colheita mecanizada, especialmente para soja, em que o corte é mais baixo. A aplicação de herbicidas dessecantes, como diquat ou amônio-glufosinato, para uniformizar a colheita e dessecar as plantas daninhas do local, não é eficaz para dessecar as plantas de vassourinha-de-botão.

Consequentemente, os prejuízos no rendimento da colheita e no aumento dos teores de impurezas e umidade dos grãos são inevitáveis.

Métodos de controle

Primeiramente, não existe receita de bolo ou herbicida milagroso. Deve-se buscar soluções integradas e regionais, com base na espécie predominante e nas condições edafoclimáticas locais.

Esses fatores permitirão o desenvolvimento dos melhores métodos de manejo, visando a desinfestação da área, com base no uso racional e inteligente de herbicidas e no manejo cultural, como a manutenção de cobertura viva ou morta sobre solo no período da entressafra (outono-inverno).

Essas práticas são preconizadas no manejo integrado de plantas daninhas e fazem parte das boas práticas agrícolas. Somente dessa forma a vassourinha-de-botão será realmente manejada no campo, com redução dos seus níveis populacionais.

De forma resumida, é importante não deixar área em pousio e fazer algum tipo de manejo na entressafra (no outono-inverno), seja químico ou cultural, escolha inteligente e diversificada de herbicidas e o uso de cultivares de soja de elevada capacidade competitiva.

Prevenção

Tratam-se de espécies nativas do Brasil, e podem estar presentes na área mesmo antes da realização de alguma atividade agrícola. Mas, é importante ter algumas ações preventivas:

1. Uso de sementes cultivadas puras, isentas de qualquer semente ou fruto de vassourinha-de-botão. Embora pelo tamanho minúsculo das sementes de vassourinha, estas seriam eliminadas com facilidade no processo de limpeza das sementes de culturas, é importante ficar atento à pureza das sementes de cultura e forrageiras adquiridas.

2. Limpeza de máquinas e equipamentos agrícolas. Certas espécies de vassourinha-de-botão possuem sistema radicular vigoroso e profundo e, em alguns casos, podem até formar rizoma na base do caule. Após a operação, equipamentos do tipo arado, grade ou subsolador, podem ficar com restos de plantas aderidos à sua estrutura, que poderão ser introduzidos em outros locais ou espalhados dentro da mesma área.

3. Limpeza dos canais de irrigação, para evitar que sementes de vassourinha-de-botão sejam disseminadas junto à água de irrigação.

4. Após a introdução na área, no início da infestação, fazer a catação manual das plantas, evitando a produção e a introdução de novas sementes no solo, que resultarão no aumento da infestação.

Canais de disseminação

Fala-se muito da disseminação de sementes de vassourinha-de-botão pelas colhedoras de grãos, devido à ausência da limpeza das máquinas. Contudo, questiono esse fato, por algo muito simples – no momento da colheita da soja, a vassourinha-de-botão não completou o seu ciclo reprodutivo, ou seja, não possui sementes.

A contaminação das colhedoras só poderia ocorrer nas colheitas de fim de maio, início de junho, quando as plantas estão com sementes formadas. As plantas de vassourinha cortadas no processo da colheita seguem a perpetuação da espécie e rapidamente crescem, iniciam o florescimento e a produção de sementes, que estarão formadas no mês de julho. Isto na região do Planalto Central.

As sementes poderiam ser colhidas com o sorgo ou milho segunda safra, mas nesse caso, as plantas estão com menos de 40 cm de altura e a altura do corte é mais alta que isso.

No entanto, cada um pode ser o seu fiscal e observar, no momento da colheita da soja da sua área, como as plantas de vassourinha estão, e ficar atento à altura da plataforma na colheita culturas de safrinha. As plantas de vassourinha já possuem sementes? Os glomérulos estão secos ou parcialmente secos?

Plantas de Mitracarpus hirtus, com detalhes dos ramos, folhas e inflorescências em áreas agrícolas de Planaltina (DF)
Foto: Núbia Correia

Importante saber

Os desafios são vários, começando pelo entendimento da espécie de vassourinha-de-botão que o agricultor possui na sua área. Até o momento já identificamos quatro espécies de vassourinha-de-botão nas áreas agrícolas do Cerrado, sendo três as mais comuns.

Contando, claro, com a colaboração de dois taxonomistas especialistas no gênero Borreria e tribo Spermacoceae. As quatro espécies identificadas foram Borreria spinosa, Borreria verticillata, Borreria remota e Mitracarpus hirtus.

Cada espécie possui características distintas em relação ao ciclo biológico, resposta aos herbicidas, etc. No entanto, no campo, todas as plantas são tratadas de Spermacoce verticillata, o que não é bem assim. As espécies B. spinosa e M. hirtus são as mais comuns na região do Planalto Central.

Além disso, outras duas espécies diferentes de vassourinha-de-botão estão em avaliação, e possivelmente a lista de espécies aumentará.

Eficácia dos métodos de controle

As diferenças entre os métodos de controle são enormes, começando pelo sorgo, que possui apenas atrazine e 2,4-D como herbicidas seletivos, para o controle de espécies folhas largas, os quais não controlam Borreria spinosa, a espécie mais comum nas áreas agrícolas do Cerrado e também a mais agressiva.

Somado a isto, da colheita da soja à semeadura do sorgo, o intervalo é muito curto, não permitindo a realização de alguma estratégia química mais efetiva antes da semeadura do sorgo.

Na soja, há várias opções de herbicidas e possibilidades de associações que resultam em excelente efeito supressor, sem mortalidade das plantas, mas com ótima inibição do desenvolvimento das plantas, garantindo que não haverá perda de produtividade, embora, para as espécies perenes, a vassourinha-de-botão permanecerá no local e ainda será mais agressiva nas próximas safras.

Prejuízos econômicos

Os prejuízos econômicos estão relacionados, sobretudo, à perda na produtividade de grãos e na interferência na colheita mecanizada, reduzindo o rendimento da operação, que também tem um custo elevado, além do próprio custo do controle da vassourinha.

Esse é o problema, pois gasta-se muito, pensando a curto prazo, sem avaliar o manejo a médio e longo prazo. Como não são estabelecidas estratégias de manejo, com foco no sistema de produção e na redução do banco de sementes de vassourinha-de-botão do solo, todos os anos é feito o investimento no controle da planta daninha, com misturas de produtos (vários) e aumento de doses, com foco em evitar perdas de produtividade da cultura do momento.

Contudo, esquece das outras culturas que virão na sucessão ou na safra seguinte. Na realidade, não percebe que as plantas que não foram mortas ficaram mais agressivas, devido ao aumento do seu sistema radicular e do potencial de infestação, decorrente da introdução de novas sementes no solo.

Os tratamentos químicos evitaram a competição, mas não foram suficientes para impedir a produção de sementes pelas plantas. Apenas por curiosidade, uma planta de Borreria spinosa, pode produzir mais de 90 mil sementes por ano.

Alternativas de controle

A estratégia que acho excelente, por todos os benefícios que traz ao sistema de produção, é o uso de gramíneas forrageiras, tais como braquiária, colonião, milheto forrageiro ou sorgo forrageiro na entressafra, instalados na área após a colheita da soja ou na sobressemeadura da cultura.

Essas espécies inibem o desenvolvimento da vassourinha-de-botão, favorecendo o controle químico da cultura na safra. Então, as coberturas vegetais não atuam sozinhas e necessitam de estratégia complementar.

Porém, dependendo da época e da forma de semeadura (a lanço ou em linha), a forrageira demorará para emergir e iniciar o seu crescimento, que poderá ser abafado pelas plantas de vassourinha-de-botão.

No processo da colheita, as plantas de vassourinha foram cortadas, assim, as plantas na área são oriundas, principalmente, de rebrota e já possuem um sistema radicular formado. Esse fato favorece o crescimento das plantas, que é mais rápido do que o crescimento inicial das gramíneas, originárias de sementes.

Por isso, mesmo não sendo eficazes no controle (na mortalidade) da vassourinha-de-botão, é importante avaliar a necessidade de aplicação de herbicidas seletivos para as espécies de gramíneas, como atrazine, 2,4-D ou metsulfuron-methyl, para inibir o crescimento da vassourinha-de-botão, sem afetar o crescimento das gramíneas.

Em um programa de desinfestação de área, nada será resolvido no primeiro ano – são ações que, somadas, terão um resultado positivo a médio e longo prazos. O imediatismo não é válido para o sucesso no manejo de vassourinha-de-botão.

Outra estratégia não química é o manejo mecânico, com subsolador ou grade, após a colheita da cultura de verão, que pode ter certa efetividade no manejo das plantas adultas das espécies perenes de vassourinha-de-botão.

Contudo, é importante ser cuidadoso com o revolvimento e o corte de todos os resíduos vegetais da parte aérea e raiz, que poderão rebrotar no início das chuvas. Somado a isto, se não for associado ao uso de herbicidas residuais nas próximas safras, haverá reinfestação da planta daninha na área e, novamente, a ocorrência de plantas adultas.

Não se pode negligenciar que o solo é um reservatório de sementes de plantas daninhas, e que a maioria delas “germina quando quer”, por possuírem dormência, acarretando em uma longa longevidade no solo.

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