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PANC tem demanda crescente

Crédito: Freepik

Daniela Aparecida Lima Costa
Engenheira agrônoma e mestranda em Ambiente e Sistema de Produção Agrícola – Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)
danielalima@outlook.com
Renê Arnoux da Silva Campos
Doutor em Agronomia Agronomia/Horticultura – UNESP/Botucatu
renecampos@unemat.br
Santino Seabra Júnior
Engenheiro agrônomo, doutor, PhD e professor – UNEMAT
santinoseabra@unemat.br

As plantas alimentícias não convencionais (PANC), também conhecidas como hortaliças não convencionais, são plantas que possuem uma ou mais partes comestíveis, podendo ser cultivadas e/ou estarem presentes de forma espontânea em hortas e quintais, jardins e outros espaços.

Embora sejam desconhecidas para grande parte da população, muitas dessas plantas são familiares e essenciais para as populações tradicionais, contribuindo com a segurança alimentar e nutricional.

As PANC possuem distribuição limitada, restrita a localidades ou regiões específicas, não havendo a organização de uma cadeia produtiva formal, mas exercem grande influência na dieta e cultura das populações tradicionais.

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Recurso alimentar

Atualmente, estas espécies têm sido estudadas, sendo revelados altos teores de nutrientes e compostos funcionais, tornando-as um recurso alimentar importante para as comunidades, até mesmo por serem espécies rústicas e adaptadas regionalmente.

Como exemplo, podemos citar espécies tropicais como a chicória-do-pará, jambu, taioba, beldroega, bertalha, caruru, entre outras espécies, que podem viabilizar a produção em um cenário de mudanças climáticas globais.

Mercado

As PANC têm grande importância regional, como é o caso da chicória-do-pará e do jambu, que são amplamente comercializados em Belém do Pará; ou da taioba, bertalha e jurubeba, que são comercializadas em feiras livres em municípios de Minas Gerais.

Em regiões mais tradicionais de Mato Grosso são comercializados o cará, caxi e outras espécies, porém, em outras regiões são desconhecidas ou cultivadas em pequenas hortas, sendo comercializadas de maneira informal.

As PANC dificilmente são encontradas em supermercados. Porém, têm ganhado interesse por consumidores e principalmente no segmento de restaurantes gourmet, gerando uma demanda para os agricultores familiares, incentivando a oferta do produto, principalmente em sistemas orgânicos de produção.

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Como por exemplo, podemos citar o mercado do jambu para suprir a demanda de pizzarias e restaurantes, ou das flores da capuchinha, que são amplamente utilizadas na ornamentação de pratos e na composição de saladas, até mesmo sendo encontrada em redes varejistas de grandes capitais.

Exemplos interessantes de mercado são da taioba, ora-pro-nóbis e maxixe para os imigrantes mineiros que residem em Boston (EUA), pois são plantas que fazem parte da cultura de um povo e este gera demanda de produtos tradicionais onde residem.

Possibilidades

Uma maneira de viabilizar a comercialização é o segmento de alimentos congelados. Nos últimos cinco anos, este mercado cresceu cerca de 25% ao ano. Neste setor, podemos destacar as polpas de frutas regionais como a pitanga, cajá, canjiquinha, bocaiuva, pequi, entre outras.

Porém, também o congelamento pode viabilizar a comercialização de taioba, ora-pro-nóbis e outras espécies que apresentam baixa durabilidade de prateleira.

Dentre as possibilidades de mercado, temos o segmento de hortaliças minimamente processadas, que são alimentos que possuem características, propriedades e qualidade de alimentos frescos e que, após passarem por higienização e corte, são embalados em porções, proporcionando menor desperdício. Neste caso, podemos citar o maxixe como exemplo.

Nos processados, pequenas agroindústrias têm produzido a conserva de pequi, pepininho-silvestre e jurubeba, além da desidratação de espécies condimentares, como a chicória-do-pará.

Regionalização

De maneira geral, o mercado ainda é regionalizado, com maior enfoque em vendas diretas, ligando o agricultor e o consumidor, pois muitos desses alimentos envolvem o “saber fazer”, como manusear o produto e prepará-lo para o consumo, necessitando de uma troca de conhecimento na confecção de pratos.

Porém, conforme a demanda do produto aumenta para determinadas espécies em certas regiões, o produto passa a acessar os mercados formais e a ser encontrado de forma mais ampla.

O mercado online também tem contribuído para o crescimento do setor, com sites especializados na comercialização desses produtos. A perspectiva é que esses alimentos se tornem cada vez mais difundidos e, em breve, a população em geral possa ter acesso a estas iguarias.

Demanda crescente

A demanda das PANC tem aumentado por dois fatores principais: primeiro, devido à divulgação dessas espécies, principalmente sobre as formas de preparo e, depois, devido ao aumento na quantidade dos estudos científicos sobre suas propriedades nutritivas e compostos funcionais.

A alimentação é uma oportunidade de conhecer novos sabores, cores e texturas, tornando uma experiência única de conhecer os pratos regionais ou gourmetizados. O amplo número de espécies com diferentes partes comestíveis aumenta as possibilidades de criação de pratos e até mesmo de novos produtos, como doces, geleias, molhos, sorvetes, refrigerantes, entre outros.

Por exemplo, podemos citar a geleia de cubiu, molho de tucupi condimentado com chicória-do-pará e polpa de bocaiuva, que são estão sendo utilizados mais recentemente no preparo de novas receitas.

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Valorização

Quanto à valorização das PANC, devido às propriedades nutricionais e altos teores de compostos funcionais, podemos destacar o grande interesse pela ora-pró-nobis, porém, muitas espécies hoje estão sendo pesquisadas e têm ganhado destaque devido aos benefícios para a saúde associados, como os altos teores de pró-vitamina A (β-caroteno) em espécies folhosas, como taioba, bertalha, chicória-do-pará, compostos fenólicos em jurubeba, com ação protetora comprovada para a saúde humana, além da alta capacidade antioxidante destas espécies.

A ampla divulgação dos resultados das pesquisas científicas contribui para o aumento da demanda desses produtos, possibilitando a criação e ampliação de mercados, impulsionando a demanda e, consequentemente, o cultivo.

Também existe o interesse por meio de práticas de consumo conscientes. Relações sociais com produtores/comerciantes criam e fortalecem uma ideia e estilo de vida, bem como uma identidade coletiva comprometida com valores culturais e ecológicos do local. Esses mercados de plantas não convencionais trazem vários benefícios ao consumidor, meio ambiente e produtor.

A grande vantagem de trabalhar com as PANC é a possibilidade da acessar um novo mercado, possibilitando a inovação através da criação de novos produtos e a possibilidade de consolidação no mercado de baixa concorrência, atraindo os mercados nacional e internacional com as diversidades de produtos.

Além de contribuir para a produção sustentável com alimentos saudáveis, busca cooperar com o desenvolvimento rural e conservação dos recursos naturais, valorizando os conhecimentos empíricos dos povos rurais tradicionais e os pequenos agricultores.

Obstáculos

A demanda por PANC’s tem aumentado, no entanto, há dificuldades no cultivo e produção comercial destas espécies por falta de sementes comerciais e propágulos para a formação de mudas de alta qualidade.

A maioria das sementes vem de quintais de produtores rurais, ou muitas vezes obtidas por doações de vizinhos, o que pode trazer doenças e pragas para o cultivo. Algumas espécies, como jambu, vinagreira e bertalha já possuem cultivares comerciais, o que possibilita a padronização do cultivo e acesso a sementes.

A divulgação de pesquisas e incentivo do governo são bem reduzidas e, por isso, poucas espécies de PANC’s estão registradas no Registro Nacional de Cultivares (RNC/Mapa), ocasionando, principalmente, o desconhecimento da existência de algumas espécies, impedindo a implantação.

A falta de pesquisa e divulgação das propriedades nutricionais das PANC é um fato a ser considerado, o que justifica a sua baixa demanda de mercado, além de falta de informações técnicas sobre o cultivo, manejo, clima, solo, requisitos de preparo do solo, adubação, transplante e tratos culturais.

Outro ponto importante é a falta de tecnologia, máquina, equipamento para processar algumas dessas espécies em grande quantidade, principalmente nas fases de colheita e pós-colheita, como para a produção de alimentos desidratados, farinhas e bebidas, reduzindo a vida útil da espécie após a colheita.

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Porém, mesmo que haja adversidades no cultivo, há mercado para as PANC, atraindo cada vez mais chefs e outros profissionais do segmento culinário e gastronômico. Alguns tipos de iguarias são baseados em comidas regionais e típicas.

Essas PANC podem ser comercializadas em diversos setores, com diferentes finalidades: consumo in natura, produção de mudas, venda de sementes, beleza decorativa para paisagismo, produção de alimentos, farinhas, bolos, biscoitos, pães e bebidas como cerveja, sucos, chás.

Como começar

Para cultivar as PANC, primeiro o produtor tem que levantar a demanda de mercado e procurar informações sobre as espécies de interesse, pois cada uma tem manejos específicos e possui poucas cultivares padronizadas e sementes comercializadas.

Desta forma, o agricultor deve conhecer a adaptação das espécies ao clima local, sazonalidade de produção, tendo que produzir suas próprias sementes e propágulos em muitos casos, podendo levar anos, a depender da espécie, para obter quantidades de material para viabilizar uma produção comercial.

Investir em informação e tecnologia é essencial em sistemas de cultivo adaptados à região, seja cultivo protegido ou campo aberto. A questão do conhecimento sobre o ciclo, métodos de colheita e tecnologia pós-colheita ainda são insipientes para muitas espécies.

A localização da propriedade próxima ao centro consumidor é, muitas vezes, o que torna a atividade viável, pois muitas espécies têm um tempo de prateleira muito pequeno, necessitando de entregas diárias.

Vamos ao que interessa

De maneira geral, o cultivo de hortaliças é considerado mais lucrativo do que outras culturas, como grãos. Porém, há pouca informação sobre as PANC, mas devemos ter como base que, para o cultivo de hortaliças, deve-se investir em fertilidade do solo, irrigação, construção de viveiro de mudas e áreas de cultivo protegido, o que torna o custo de implantação muito variável, dependendo das espécies.

Para um pequeno agricultor que vai produzir a campo aberto, o investimento inicial pode variar de R$ 1.000 a R$ 7.000 por hectare, dependendo da espécie, região e época de cultivo.

Assim, conhecer a planta e entender o ciclo da cultura é essencial para que o produtor consiga programar suas ações de manejo para explorar plenamente o potencial da espécie que está sendo cultivada.

O tempo de retorno da primeira colheita ao produtor depende muito da espécie e de como foi propagada (sementes, estacas ou outras formas de propagação). As PANC variam de espécies de ciclo curto, que duram pouco mais de um mês, às que produzem por vários anos.

Porém, ter retorno depende de um estudo de mercado e da consolidação do sistema de cultivo, podendo levar de dois a cinco anos.

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