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Percevejo marrom causa perdas de até 30% na soja

O percevejo marrom, muitas vezes invisível aos olhos, pode causar perdas significativas de até 30% na produção de soja, destacando a importância de estratégias de manejo eficientes.

Fernando Henrique Iost Filho
Doutor e professor – Faculdade de Agronegócios de Holambra
fernandohiost@usp.br

Ana Clara Ribeiro de Paiva Iost
Doutora e pesquisadora – SmartMIP
anaclara@smartmip.com.br

Pedro Takao Yamamoto
Doutor e professor – USP/ESALQ
pedro.yamamoto@usp.br

O percevejo-marrom representa um risco significativo para as lavouras de soja nas regiões centro-oeste, sudeste e sul do Brasil. Esses pequenos insetos podem causar perdas de até 30% das colheitas de soja, comprometendo potencialmente 40 milhões de toneladas métricas de oleaginosas no Brasil e ameaçando gerar uma perda de mais de R$ 12 bilhões ao ano.

Ovos do percevejo em vagens de soja
Crédito: Fernando Fávero

Sintomas

O percevejo-marrom Euchistus heros é a principal espécie de percevejo-praga da cultura da soja, causando danos desde a fase de ninfa até a fase adulta. Sua importância se dá devido ao ataque às estruturas reprodutivas, por isso, o período de maior atenção se inicia no estágio reprodutivo R3.

No entanto, com as altas populações cada vez mais frequentes, o produtor deve se atentar aos primeiros indivíduos migrantes, logo no final da fase vegetativa da cultura. Por se alimentarem inserindo o aparelho bucal nas vagens ou grãos de soja, os danos podem ser diretos ou indiretos.

Entenda os danos

Os danos diretos vão desde a redução da qualidade e peso do grão, fazendo com que os mesmos fiquem chochos e enrugados, até o abortamento de vagens e inviabilização das sementes.

Por outro lado, os danos indiretos consistem na facilitação da entrada de patógenos de grãos devido ao orifício causado pela alimentação.

Identificação

A principal forma de identificação da infestação é pelo monitoramento e observação da presença dos ovos, ninfas e adultos. Os ovos são amarelos, colocados em fileiras duplas, geralmente com 10 ovos em cada massa.

As ninfas variam em coloração, indo do cinza ao marrom. Já os adultos têm a característica principal de serem de cor marrom, com uma mancha em forma de meia-lua na terminação da região do pronoto.

Manejo integrado

O controle químico ainda é a principal estratégia utilizada. Uma pesquisa rápida na base de produtos fitossanitários do Ministério da Agricultura (Agrofit) indica que existem 100 produtos químicos registrados para o controle dessa praga na soja.

No entanto, todos eles são parte de apenas alguns grupos químicos, com destaque para os organofosforados, piretroides, fenil-pirazois e neonicotinoides. Os melhores resultados têm sido obtidos com produtos que apresentam a mistura de dois modos de ação.

Existem, também, outras formas de controlar o percevejo-marrom que podem e devem ser utilizadas como alternativas complementares ao controle químico. A primeira delas é o controle biológico, que pode ocorrer das seguintes formas:

– Controle biológico inundativo: por meio de liberações massais dos parasitoides de ovos, com destaque para a espécie Telenomus podisi.

Controle biológico conservativo: existem outros parasitoides e predadores que ocorrem naturalmente na lavoura e são importantes agentes de controle que devem ser conservados.

Controle biológico com microrganismos: outra opção é a utilização de fungos entomopatogênicos, especialmente com produtos à base de Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae e com a combinação de ambos. Existem também produtos microbianos no mercado à base de metabólitos de bactérias.

Seletividade de produtos

Considerando as formas de controle biológico expostas, vale ressaltarmos a importância de priorizar o uso de produtos químicos seletivos em um programa de manejo integrado de pragas.

Por ser uma espécie polífaga, diferentes espécies de plantas podem servir de hospedeiras e alimento dessa praga. Por isso, é importante se atentar às plantas que estão no entorno da área de plantio e fazer a rotação de culturas, inclusive de plantas daninhas. 

Controle cultural

Outra característica dessa praga é que, durante os meses mais frios, ela pode entrar em dormência sob a palhada, ficando protegido do ataque de parasitoides e predadores.

A utilização de cultivares precoces também é uma alternativa de controle cultural dessa praga.

Armadilhas e monitoramento

A maior dificuldade para a implementação correta de tática de manejo integrado de pragas é justamente o monitoramento das populações da praga no campo. No caso do percevejo-marrom, o monitoramento se dá pela batida de pano em pontos aleatórios da lavoura, contando-se o número de indivíduos que caem no pano.

No entanto, em áreas extensas e na ausência de mão de obra disponível, essa é uma tarefa muito difícil, sendo negligenciada pelo produtor, em muitos casos. Nesse sentido, tecnologias de sensoriamento remoto poderiam auxiliar na tomada de decisão, indicando ao produtor o local e o momento correto para o controle.

Pesquisas

Apesar dos contínuos esforços da comunidade científica, ainda não está disponível para uso no campo uma tecnologia que indique ao produtor os pontos da lavoura infestados baseada, exclusivamente, em dados de sensoriamento remoto.

No entanto, estudos da Embrapa Soja, no estado do Paraná, indicaram que o uso de sistemas de informação geográfica pode contribuir positivamente para o manejo dessa praga.

De forma resumida, os resultados indicaram que a aplicação localizada de inseticidas somente nas zonas de manejo que necessitavam de controle de acordo com a amostragem georreferenciada com pano-de-batida possibilitou redução de 45% no uso de inseticidas químicos em comparação com o manejo baseado em aplicações periódicas sem o devido conhecimento da distribuição da praga na lavoura.

Práticas recomendadas

Em relação ao manejo no entorno da lavoura, é de grande importância que o produtor tenha um bom manejo das plantas infestantes, pois essas podem servir de abrigo para o percevejo-marrom.

Merecem destaque espécies como leiteiro (Euphorbia heterophylla), buva (Conyza spp) e carrapicho-de-carneiro (Acanthospermum hispidum).

Além disso, muita atenção deve ser dada para a presença de soja-tiguera, que são aquelas plantas de soja que se desenvolvem na cultura seguinte. Apesar de parecerem inofensivas, essas plantas são como ilhas que abrigam pragas e doenças da cultura, aumentando o inóculo inicial na próxima safra.

Em sistemas de sucessão soja-algodão, também vale a atenção para a presença do percevejo-marrom, que tem sido frequentemente reportado nas lavouras de algodão.

Rotação de culturas

A criação de um ambiente diversificado com várias plantas pode contribuir de diferentes maneiras na incidência do percevejo-marrom. Uma, talvez a menos plausível, é provendo uma camuflagem que dificulta o encontro da planta cultivada e de interesse pelo percevejo-marrom.

Outra maneira da diversificação reduzir a incidência do percevejo é pela maior disponibilidade de inimigos naturais, que podem se desenvolver e aumentar sua população nas outras culturas às custas de outros insetos que a ataquem.

Com a maior incidência de inimigos naturais, menor é a chance de aumentos catastróficos de populações de pragas, incluindo os percevejos. Na cultura da soja, manter o equilíbrio na fase inicial da soja, no estágio vegetativo, propicia uma menor incidência de insetos-praga na fase reprodutiva da cultura.

Portanto, usar inseticidas mais seletivos na fase vegetativa da soja resulta em reflexos positivos na fase reprodutiva.

Prejuízos causados pelo percevejo marrom
Crédito: Fernando Fávero

Perspectivas e desafios

Uma das dificuldades é a falta de fonte de melhoramento, não permitindo o cruzamento e obtenção de variedade resistente. Existem variedades que apresentam certa resistência aos percevejos, como a tecnologia Block.

Na ausência de uma variedade resistente, a ciência tem que trabalhar no sentido de prover melhores ferramentas para o manejo do percevejo-marrom. Criar ferramentas para melhor monitorar, buscar diferentes insumos para o controle da praga, incluindo os biológicos, desenvolvendo variedades resistentes e outras táticas para o manejo do percevejo-marrom.

O sensoriamento remoto e radar têm sido estudados para melhorar o monitoramento e definição do momento e local de ocorrência do percevejo e determinação da população.

Apesar do registro de insumos biológicos para o manejo do percevejo-marrom, em comparação às outros pragas, o número de produtos biológicos é pequeno e quando existem, esses são difíceis de produzir ou criar em larga escala, como é o exemplo do parasitoide de ovos, que, apesar de ser altamente eficiente o seu uso em grande escala se limita pela dificuldade de criação massal.

Informações técnicas

O conhecimento é primordial para enfrentar um inimigo tão poderoso como o percevejo-marrom. Portanto, a capacitação dos produtores, técnicos e funcionários das propriedades é importante para implantação de um programa de manejo integrado de pragas (MIP) que prioriza a utilização integrada e de forma harmoniosa de diferentes ferramentas.

São várias as razões para a baixa adoção do MIP, sendo que a maioria pode ser vencida com conhecimentos, obtidos em treinamentos e capacitações oferecidos a todos os integrantes do sistema de produção.

Outro ponto fundamental para a adoção do MIP e um controle mais efetivo do percevejo-marrom é a difusão de tecnologia, levar ao homem do campo informações, baseadas em pesquisa, para melhorar o manejo do percevejo-marrom. Portanto, outro ator importante para se alcançar a excelência no controle do percevejo-marrom é o extensionista.

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