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sexta-feira, maio 20, 2022
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Tratamento biológico de sementes combate as pragas

Autores

Samara Moreira Perissato
samaraperissato@gmail.com
Leandro Bianchi
leandro_bianchii@hotmail.com
Engenheiros agrônomos, mestres e doutorandos em Agronomia – UNESP/Botucatu
Roque de Carvalho Dias
roquediasagro@gmail.com
Vitor Muller Anunciato
vitor.muller@gmail.com
Engenheiros agrônomos, mestres e doutorandos em Proteção de Plantas – UNESP/Botucatu
Leandro Tropaldi
Engenheiro agrônomo, mestre em Agricultura, doutor em Proteção de Plantas e professor de Plantas Daninhas – UNESP/Dracena
l.tropaldi@unesp.br

Crédito: Shutterstock

O tratamento biológico de sementes, também descrito como micobiolização, refere-se à aplicação de microrganismos vivos às sementes para o controle de doenças, pragas, fitonematoides, e podem em alguns casos promover o crescimento de plantas.

A utilização desses agentes biológicos no tratamento de sementes (TS) ainda pode ser descrita como bioprotetores ou bioagentes e apresenta vantagens no estabelecimento da cultura, proteção das sementes e, em alguns casos, auxilia no processo de germinação, promovendo maior crescimento inicial.

Contra pragas

O controle biológico de pragas se baseia na relação antagônica entre um microrganismo e um patógeno, por meio da redução da população do patógeno ou por outros tipos de ações. O tratamento de sementes auxilia na proteção de danos causados por pragas e oferece garantia adicional ao estabelecimento da lavoura, pelo desenvolvimento de plantas vigorosas e sadias. Essa prática protege a semente desde o contato inicial com o solo até o início do crescimento das plantas.

Altos investimentos em pesquisa dentro desta abordagem se fundamentam na seleção e uso de organismos naturais benéficos, principalmente dos grupos de fungos e bactérias, que podem agir como promotores de indução de resistência na planta, ou como antagonistas em relação aos patógenos que se encontram na superfície das sementes ou no solo, a fim de protegê-las.

Como funciona

Quando aplicados em tratamento de sementes, os insetos necessariamente precisam ingerir folhas ou qualquer tecido oriundo da semente. O uso destes fungos pode promover a intoxicação de insetos a partir da produção de metabólitos secundários, como destruxinas, pode produzir compostos antibacterianos ou anti-fúngicos, que atuam na inibição da atividade de insetos, ou ainda sintetizar algum composto que leva a uma menor atratividade do inseto à planta.

O tratamento biológico de sementes é mais uma ferramenta dentro do mercado agrícola que agrega outros tipos de controle e aumenta o leque de opções no manejo, contribuindo para um sistema mais sustentável e com baixos impactos ambientais.

Principais fungos utilizados no controle de pragas

Fungos como Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana, Nomuraea rileyi, e Isaria fumosorosea, são considerados entomopatogênicos, ou seja, são microrganismos que prejudicam o desenvolvimento de insetos, principalmente pragas agrícolas. Por meio da utilização destes fungos no tratamento de sementes tem-se encontrado resultados positivos no controle de diversas pragas.

Os fungos entomopatogênicos são facilmente encontrados na natureza e possuem amplo espectro de controle de pragas, em que aproximadamente 80% das doenças em insetos-pragas são causadas por esses tipos de fungos.

Os gêneros Trichoderma spp. e Bacillus spp. são os fungos mais estudados para o controle de pragas e doenças em uma alta gama de culturas agrícolas. Com propriedades de controle sob fitonematoides, estes fungos se destacam pelas múltiplas formas de exercerem o controle biológico, seja por antagonismo, competição, micoparasitismo, produção de metabólitos tóxicos e de enzimas extracelulares.

Além disto, o Trichoderma pode induzir resistência sistêmica nas plantas, tornando-as mais fortes contra o ataque de patógenos.

O controle biológico por meio destes agentes biológicos ainda engloba pragas como percevejo-verde da soja (Nezara viridula), cigarrinha-da-cana (Mahanarva posticata), mosca-branca (Bemisia tabaci), e até mesmo lagartas, como a falsa-medideira (Chrysodexis includens) e a Helicoverpa armigera.

Prejuízos

Os prejuízos causados por essas pragas são muito dependentes do tipo de praga e da quantidade do inseto presente no campo. De maneira geral, em condições de campo as pragas que atacam as sementes ou plântulas podem ser subdivididas em três diferentes grupos: pragas de hábito subterrâneo, que atacam as sementes e/ou sistema radicular; pragas que atacam as plântulas e causam o típico sintoma de ‘coração morto’; e insetos sugadores e/ou vetores de fitopatógenos.

Os danos às lavouras variam desde o menor estande e desuniformidade de plantas até reduções em produtividade, além de proporcionar aumento no custo para seu controle.

Culturas mais beneficiadas

Atualmente os estudos abordam grandes grupos de plantas utilizando o tratamento biológico de sementes, desde grandes culturas, como soja, milho e trigo, como diversas hortaliças e espécies florestais.

Uma das mais interessantes aplicabilidades para esta técnica está relacionada a locais onde há restrições ao uso de produtos químicos, observado em sistemas de agricultura orgânica. Além disso, de maneira complementar a outros métodos de controle, a utilização desses bioagentes vem sendo ressaltada no manejo integrado de pragas, promovendo maior eficiência e controle dentro dos pilares de sustentabilidade.

Manejo

O tratamento de sementes baseia-se no controle biológico aumentativo, em que os agentes de controle biológicos são produzidos em grandes quantidades e aplicados nas lavouras. A escolha do produto para tratamento biológico de sementes é o fator-chave que pode influenciar no desempenho, sanidade, segurança e impactos ambientais.

A seleção dos produtos e as combinações devem se basear exclusivamente em produtos registrados para a cultura-alvo e a qualidade do tratamento de sementes realizado também determinará a eficácia da técnica.

Além disso, é importante a precisão de doses dos produtos, a correta quantidade de sementes, a homogênea cobertura delas e o tempo de armazenamento para obter sucesso no TS. Portanto, as recomendações da bula devem ser seguidas de acordo com as empresas responsáveis pelos bioprodutos, que fornecem informações quanto às faixas de tolerância de seus agentes, principalmente em relação à temperatura, umidade e pH, para que o produtor escolha o produto mais apropriado às suas necessidades.

Erros

No tratamento de sementes deve-se prestar atenção à dose utilizada – um grande erro está na utilização de superdosagens, que pode levar à diminuição da germinação e do vigor das sementes e afetar, consequentemente, o estabelecimento da cultura.

É importante, ainda, se adequar ao tempo de sobrevivência dos agentes biológicos para melhorar a eficiência do tratamento. Um dos principais problemas para utilização massiva de microrganismos no tratamento de sementes tem sido a formulação destes para o uso comercial.

Várias substâncias têm sido utilizadas em formulações experimentais, mas há poucos produtos disponíveis no mercado. Além disso, os resultados ainda ficam restritos à pesquisa, dificultando a difusão da informação para atender à necessidade dos produtores.

De maneira particular, os estudos têm focado no controle de doenças, havendo a necessidade de aprofundar o conhecimento no que diz respeito às pragas. Embora existam expectativas de demanda crescente, alguns pontos fundamentais precisam ser considerados para se alcançar maior sucesso no tratamento de sementes com agentes biológicos para o controle de pragas.

A eficácia, praticidade, segurança, tecnologia de aplicação, manutenção dos bioagentes e rentabilidade são essenciais para a incorporação do tratamento biológico de sementes pelos agricultores e sociedade.

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