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Antracnose: mangas sob alerta

Foto: Arquivo

Adjair José da Silva
Engenheiro agrônomo, mestre e doutorando em Agronomia – Universidade Federal da Paraíba (UFPB-CCA)
adjairsiva.agronomia.ifpe@gmail.com
Caique Palacio Vieira
Engenheiro agrônomo e mestrando em Agronomia – UFPB-CCA
caiquepalacio5@gmail.com

A cultura da mangueira (Mangifera indica L.), de ampla adaptação às condições edafoclimáticas da região nordeste brasileira, tornou-se não só um dos cartões postais da fruticultura irrigada, mas um dos símbolos de desenvolvimento econômico.

Não obstante, muitos são os problemas encontrados na cadeia produtiva desta cultura, em muitos casos limitantes à sua exploração comercial, tendo em vista as perdas quali e quantitativas produzidas nesta cultura.

Um dos mais importantes é o ataque de microrganismos fitopatógenos. Causado por fungos do gênero Colletotrichum, sendo o Colletotrichum gloeosporioides o responsável pela antracnose, esta é a principal doença a nível mundial na cultura da manga, afetando folhas, flores, frutos e ponteiros.

Ataque

Os frutos são afetados em todas as fases, inclusive após a colheita. Relacionado à suscetibilidade da planta hospedeira, a doença atua de acordo com sua variedade e as condições climáticas de umidade favorável, sendo não significativa em regiões quentes e secas.

A incidência da antracnose ocorre após um período de 12 a 18 horas, com alta umidade. Os estágios de maior suscetibilidade à doença são as flores, os frutos novos e em período de maturação.

Após a colheita, a antracnose continua se desenvolvendo, sendo um dos principais fatores que dificulta a manutenção das frutas na prateleira.

Como ela afeta a manga

A antracnose pode incidir em ramos novos matando completamente o ponteiro, com sintomatologia muito semelhante à da morte de ponteiros causada por bactéria. O fungo pode sobreviver na forma saprofítica, em partes afetadas remanescentes na árvore ou no chão, como restos de ramos, flores ou frutos.

O fungo esporula em condições de calor e umidade e pode ser disseminado pelo vento ou pela chuva. Nos frutos, os períodos de maior suscetibilidade à antracnose são quando os mesmos são bem novos ou em maturação.

A suscetibilidade dos frutos novos vai diminuindo com a idade até a 8ª semana. A antracnose incide na região do pedúnculo do fruto, causando uma doença denominada podridão peduncular, que pode também ser ocasionada por outras espécies de fungos.

A incidência da antracnose pode ocorrer na forma denominada “mancha de lágrima”. O fungo se estabelece acompanhando a umidade provocada pelo escorrimento do orvalho ou da chuva.

Prejuízos em cada fase da produção:

Folhas: nessa fase a doença causa manchas arredondadas, de 1,0 a 10 mm da cor marrom nas folhas que, consequentemente, provocam a redução da área foliar do limbo, sendo prejudicial à fotossíntese, ocorrendo a senescência da folha.

Brotações: presença de manchas necróticas escuras, que podem evoluir para um secamento da ponta para a base, e consequente desfolha.

Foto: Adjair José da Silva

Inflorescência: inicia-se com pontuações escuras, que se tornam alongadas e profundas e evoluem para a morte de flores e queda de frutos ainda pequenos. Queima de toda a inflorescência quando o ataque é severo.

Frutos: no início de seu amadurecimento é comum observar manchas marrom escuras a pretas, arredondadas e levemente deprimidas. A mancha pode apresentar um padrão de escorrimento tipo uma lágrima, caso se inicie a partir do pedúnculo para a base do fruto, devido à infecção do fruto a partir de esporos presentes em água livre que escorreu. Com a evolução, as manchas aumentam e ficam deprimidas, podendo rachar, levando ao apodrecimento do fruto.

Formas de controle

Para o controle da antracnose, recomenda-se maior atenção para os períodos críticos de incidência, que são o de florescimento, frutos novos (especialmente na fase de chumbinho) e frutos no estágio de maturação.

O patógeno pode ficar latente, vindo a se manifestar com sintoma visível apenas na maturação. O controle da antracnose deve incluir práticas de remoção e queima dos frutos mumificados e das partes podadas no inverno, com o objetivo de reduzir o inóculo inicial.

Em anos com verões úmidos, deve-se pulverizar a cultura, com reaplicação de acordo com o fungicida utilizado.

Controle químico

Deve ser utilizado quando o histórico do local indicar que a doença irá ocorrer. Nesse caso, a primeira pulverização deve ser feita na pré-florada, no intumescimento das gemas florais.

Deve continuar por toda a florada até atingir o estágio de frutos do tamanho de uma bola de gude. Os fungicidas à base de cobre (oxicloreto de cobre, óxido de cobre e hidróxido de cobre) são eficientes contra a antracnose, mas são fitotóxicos às flores, não devendo ser utilizados durante o florescimento.

Após a colheita, recomenda-se a imersão dos frutos em água quente a 55ºC durante cinco minutos com prochloraz a 0,055% e detergente a 0,1%.

Custo

Conforme orientação contida na bula de um dos produtos comerciais mais utilizados para o controle da antracnose da manga, recomenda-se a dosagem de 3,0 litros por hectare, sendo três aplicações do produto durante o ciclo de produção.

O produtor terá um custo médio de R$ 2.100,00, levando em consideração que o produtor irá gastar com diárias do aplicador, além da depreciação dos equipamentos utilizados e aquisição do princípio ativo.

Formas de prevenção

– Evitar instalação de pomares em locais com alta umidade no ar.

– Fazer podas que favoreçam a insolação e a ventilação.

– Utilização de variedades resistentes, como Alfa e Surpresa. Variedades suscetíveis são: Bourbon, Haden e Espada Vermelha.

– Ainda no controle preventivo, caso a região se caracterize como favorável ao desenvolvimento do fungo, recomendam-se pulverizações com fungicidas nos pomares, junto com práticas culturais para reduzir o nível de inóculo.

Medidas culturais

Foto: Adjair José da Silva

Entre as medidas culturais recomendadas, destacam-se: poda de limpeza das plantas, eliminando os ramos com sintomas da doença; induzir a floração em épocas que não coincidam com chuvas; realizar poda de formação da copa a fim de propiciar boas condições de arejamento e desfavorecer a infecção do patógeno; colheitas frequentes e não deixar frutos maduros nas plantas; fazer a catação manual de frutos contaminados na área de produção, fazer adubações adequadas, evitando o desbalanço nutricional; e pulverizar com fungicidas para reduzir o inóculo da área (mancozeb, tiofanato metílico, tebuconazole oxicloreto de cobre, hidróxido de cobre e óxido cuproso).

Inovações

Para evitar a seleção de patógenos resistentes, é necessário o desenvolvimento de produtos que não potencializem essa seleção e que não sejam maléficos à saúde dos consumidores.

Vários estudos foram realizados com o propósito de reduzir as infecções desse patógeno e controlar a antracnose de forma eficiente utilizando produtos alternativos, como biofungicidas, óleos essenciais e extratos vegetais, macerado de neem, alho, pimenta, além de revestimentos comestíveis.

Experimentos avaliaram a eficácia do óleo de soja e de extrato de sucupira no controle da antracnose e na conservação da manga na pós-colheita. Os resultados demonstraram ser promissores para seu controle.

Dentre outros tratamentos, se tem a aplicação de fungicidas por meio de atmosfera modificada. A utilização da técnica de ensacamento dos frutos de manga também pode ser adotada no controle da antracnose.

A elaboração de um programa de controle da antracnose varia muito, dependendo, sobretudo, das condições climáticas; intensidade e frequência com que a doença se manifesta; monitoramento frequente do campo; observar as previsões meteorológicas, principalmente nos períodos de floração, frutificação e colheita, de modo a estabelecer uma adequada estratégia de controle.

Erros mais comuns

Alguns produtores negligenciam os tratos preventivos à doença, deixando de tomar os cuidados que venham contribuir para diminuir a quantidade de inóculo nas áreas de cultivo. O uso de produtos não registrados para a cultura, falta de orientação quanto à dosagem dos produtos a serem usados no controle da antracnose, falta de constância no protocolo de aplicação são outros erros comuns.

Para evitar tais erros, é fundamental conscientizar os produtores a, de fato, fazer o que é correto quanto aos protocolos de pulverizações das lavouras, estimular dia de campo sobre as doenças da cultura, incentivar o uso de cultivares resistentes, e mostrar aos produtores resultados de produtos e experimentos em áreas de cultivo com a finalidade de controle da doença.

Em campo

Pesquisa científica com o uso de extratos e óleos vegetais que são utilizados para o controle da doença, uso de produtos biológicos consorciados aos químicos no controle da antracnose e na conservação da manga vêm surtindo efeitos positivos, além do uso de biofungicidas.

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