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Biológicos avançam sobre lavouras de HF

O mercado de produtos biológicos é um dos mais promissores da atualidade. No Brasil, estima-se que este segmento alcance R$ 16,9 bilhões até 2030 (Embrapa), o que representará um aumento de mais de 100% em comparação aos números atuais que totalizaram R$ 1,8 bilhão.

Franciely S. Ponce
francielyponce@gmail.com

Thiago Alberto Ortiz
thiago.ortiz@prof.unipar.br

Silvia Graciele Hulse de Souza
silviahulse@prof.unipar.br
Engenheiros agrônomos, doutores e professores – UNIPAR/Umuarama-PR

O segmento dos biológicos tem apresentado crescimento contínuo ano após ano, tendo crescido, entre 2019 a 2020, 43%, de 2020 a 2021, 33% e no último ano, o crescimento foi de 35%.

A maior parte dos produtos biológicos, cerca de 75%, é utilizada nas culturas de soja, cana-de-açúcar e milho, impulsionado pela necessidade de reduzir a dependência de insumos importados, mas também devido a políticas públicas, como o Programa Nacional de Bioinsumos.

Além disso, tem-se buscado a redução de resíduos e alimentos mais seguros. Em 2005, houve o primeiro registo de um produto biológico no Brasil, e atualmente, esse já são 482 registrados até fevereiro de 2023, demonstrando o potencial gigantesco deste mercado no país.

Para a horticultura

O uso de biológicos para a produção de hortaliças tende a crescer nos próximos anos, principalmente devido à popularização, aumento da oferta, melhoria na logística, além dos resultados satisfatórios obtidos a partir do uso destes produtos.

Apesar de ocupar apenas 25% do mercado consumidor de biológicos, a produção de hortaliças tende a ser um dos nichos com maior uso desses produtos. Isso devido às características do mercado, como consumo in natura, em sua maioria, cultivo intensivo em pequenas áreas, exigências quanto à qualidade e maior preocupação com relação à contaminação por agrotóxicos.

Aliado a isso, o ciclo curto de muitas culturas, como alface, rúcula e a dinâmica de colheita de couve e de tomate, por exemplo, exigem que o produtor paute por produtos com menor período de carência.

Relevância das pragas

O ressurgimento de pragas, atrelado à seleção de populações resistentes, é outro fator importante em que o produtor se baseia para o posicionamento de ferramentas de controle.

Isso tem sido observado em culturas como o tomate, com a ocorrência de populações resistentes de Tuta absoluta, a alta infestação de Bemisia tabaci em pimentão e tomate, grandes perdas proporcionadas pela traça-das-crucíferas (Plutella xylostella) em cultivos de brássicas, além das doenças e nematoides, que reduzem consideravelmente a produção.

Existem vários produtos biológicos registrados para manejo de pragas, doenças e nematoides em hortaliças, classificados com agentes micro ou macrobiológicos. Os macrobiológicos são predadores ou parasitoides, a exemplo do parasitoide de ovos Trichogramma pretiosum, uma microvespa que parasita ovos de lepidópteros, realizando assim o controle.

Já os agentes microbiológicos são aqueles que apresentam em sua composição fungos, bactérias ou mesmo vírus capazes de controlar outros microrganismos, insetos e nematoides.

Produtos registrados

Atualmente, existem registrados 142 biofungicidas à base de Bacillus spp. e Trichoderma spp, com ação sobre várias doenças de pré e pós-colheita.

Além desses, há 17 produtos à base de B. subtilis registrados como biobactericidas. Os produtos registrados como bionematicidas são à base de B. amyloliquefacies, B. licheniformis, B. methylotrophicus, B. paralicheniformis, B. subtilis, B. velezensis, Paecilomyces lilacinus, Pasteuria nishizawae, Purpureocillium lilacinum, Trichoderma endophyticum e T. harzianum, resultando em 96 produtos.

A maior parte dos bioacaricidas registrados têm como agente microbiológico a Beauveria bassiana.

Dentre os produtos biológicos à base de microrganismos registrados no Brasil, temos alguns com ação diversa, podendo ser biofungicida, bioinseticida, biobactericida, bionematicida e bioacaricida (Figura 1).

Figura 1. Bioinseticidas registrados no Brasil à base de Isaria fumosorosea, Baculovirus anticarsia, Bacillus thuringiensis, Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana, Bacillus amyloliquefaciens, Bacillus subtilis e Trichoderma spp.
Fonte: Agrofit, 2023.

Trichoderma

No caso do Trichoderma, encontramos os mais diversos usos desde a ação sobre várias doenças, até mesmo ação nematicida (Figura 2). Outros agentes de controle, como o Bacillus thuringiensis, apresentam ação mais direcionada, controlando apenas insetos da ordem lepidóptera, assim como observado no caso de T. pretiosum.

Figura 2. Ciclo e período de colheita, pragas, doenças e agente de controle biológico em alface, rúcula, couve e tomate.

Manejo assertivo

O manejo de lepidópteros-praga nas culturas pode ser realizado por meio da liberação de T. pretiosum, aliado a outras ferramentas, como o uso de B. thuringiensis.

O agente de controle Isaria spp. tem sido utilizado no manejo de tripes e mosca-branca, auxiliando de maneira eficiente o cultivo de hortaliças, ao passo que o uso do fungo Trichoderma age sobre várias doenças e nematoides.

Inovações

As inovações mais significativas em biológicos têm sido, principalmente, a alta eficiência de controle observada em pragas de difícil manejo, como as traças, mosca-branca, tripes e sobre os fitonematoides.

Em cultivo de brássicas, a liberação semanal do agente biológico T. pretiosum foi capaz de entregar alta eficiência, zerando a necessidade de aplicação de inseticidas. No cultivo de brássicas, a ocorrência de lepidópteros-praga, como a traça-das-crucíferas, falsa-medideira e Spodoptera spp. proporciona elevadas perdas.

O estudo foi desenvolvido na cidade de Pardinho (SP), em uma propriedade de cultivo comercial de hortaliças. Resultados como esse demostram que o uso de controle biológico é eficiente mesmo em condições de alta pressão de pragas (Figura 3).

Figura 3. Cultivo de repolho manejado com Trichogramma pretiosum. Pardinho-SP
Autoria: Franciely S. Ponce

Comparativo

O uso de bionematicidas apresenta elevada eficiência, sendo muito superior aos resultados observados com relação aos nematicidas químicos. Além disso, proporcionam maior proteção às raízes, podendo ter efeito sobre doenças como o Fusarium.

O uso de Isaria spp. e B. bassiana tem permitido o manejo de insetos como mosca-branca e tripes com elevada eficiência, auxiliando no manejo destes insetos de difícil controle (Figura 4).

Figura 4. Ação do fungo Isaria spp. sobre Bemisia tabaci.
Autoria: Claudia Ap. de Lima Toledo

Mais produtividade e sustentabilidade

Os benefícios do uso do controle biológico vão além dos observados com relação ao controle de pragas e doenças e atingem os custos de produção, uma vez que podem representar uma redução de custo de manejo.

Além disso, o uso de alguns produtos à base de microrganismos como o Trichoderma auxilia na qualidade do solo. A menor contaminação por resíduos de agrotóxicos reflete diretamente sobre a microbiota do solo, aumentando a qualidade do mesmo e tornando o manejo mais sustentável.

Outro fator observado é que há uma maior diversificação na entomofauna benéfica nos agroecossistemas, o que contribui para uma redução na necessidade de posicionamento de ferramentas de controle de pragas, devido ao aumento da mortalidade natural do agroecossistema.

Limitações

Os principais desafios inerentes ao uso de biológicos no Brasil advém da baixa oferta, além de dificuldades na logística, principalmente relacionado aos produtos macrobiológicos.

A maior parte das biofábricas encontra-se concentrada na região sudeste, mais especificamente em São Paulo, o que dificulta a entrega em tempo hábil de macrobiológicos para as demais regiões do país. Com relação aos microbiológicos, por se tratar de produtos estáveis, não incorrem deste desafio.

Outro grande gargalo advém da necessidade de mão de obra especializada na produção e necessidade de controle de qualidade rigoroso para assegurar a eficiência em campo. Além disso, a inserção de tecnologia e a automação de processos é um fator essencial para garantir a produção em quantidade e com maior qualidade, sendo um desafio para o setor.

Aceitação de mercado

Os microbiológicos apresentam elevada aceitação por parte dos produtores, sendo utilizados com maior facilidade, pois podem ser aplicados assim como os inseticidas químicos, o que reduz o custo e a necessidade de mão de obra.

Já os insumos macrobiológicos carecem de automação para uma maior eficiência no momento da liberação, o que tem estimulado a busca por alternativas como o uso de drones, desenvolvimento de recipientes que facilitem a liberação.

Os benefícios para o produtor são inegáveis, principalmente no que diz respeito à redução de custo de produção e maior produtividade. Com relação ao meio ambiente, há a redução da contaminação por agroquímicos do solo, água e animais.

Além disso, incorre em maior sustentabilidade aos agroecossistemas, reduzindo significativamente a ocorrência de seleção de resistência e episódios de surtos de pragas e doenças.

Impactos dos biológicos para as hortifruticulturas

Amália Borsari
Diretorade Biológicos da CropLife Brasil

Marcelo Poletti
Engenheiro agrônomo e líder do projeto MIP Experienc, da CropLife Brasil

Apesar dos produtores de hortifrútis (HF) utilizarem os biodefensivos há menos tempo que os cultivos em larga escala, como em soja e algodão, o setor tem crescido em taxa de adoção, culminando num aumento de mercado para esta categoria.

Segundo dados da Consultoria Blink (2021), os biodefensivos já são utilizados em 50% da área plantada com banana e mamão no Brasil. Batata, cebola, cenoura e tomate corresponderam a 34 milhões na safra 2021/22.

Abaixo estão as informações publicadas pela CropLife Brasil em 2021:

Os principais impactos desta tendência são:

1. Redução do desequilíbrio ambiental: o uso de biodefensivos contribui para a diminuição do desequilíbrio ambiental, beneficiando a biodiversidade e a melhora da sustentabilidade das práticas agrícolas.

2. Maior uso de produtos biodegradáveis: grande parte dos biodefensivos são biodegradáveis e, consequentemente, mais ecofriendly, atendendo a grande demanda da sociedade por produtos de origem natural.

3. Custos de produção potencialmente reduzidos: a adoção de biodefensivos pode levar a uma redução nos custos de produção. Embora alguns biológicos possam ser inicialmente mais caros, eles geralmente requerem aplicações menos frequentes de outros insumos.

4. Estímulo à inovação e desenvolvimento tecnológico: o interesse crescente por biológicos impulsiona a inovação e o desenvolvimento de novos produtos no setor. Isso não apenas aumenta a eficiência dos produtos disponíveis, mas também expande as opções de tratamento para diferentes pragas e doenças.

5. Flexibilidade e adaptação no manejo de culturas: os biológicos oferecem uma maior flexibilidade no manejo de pragas e doenças, pois muitos são registrados por alvo e não por cultura específica. Isso permite que os agricultores utilizem o mesmo produto biológico em diferentes culturas, adaptando-se mais facilmente às condições variáveis.

6. Melhoria na aceitação do mercado e oportunidades de exportação: produtos agrícolas cultivados com biológicos são geralmente mais bem aceitos em mercados nacionais e internacionais, especialmente naqueles que valorizam práticas sustentáveis. Isso pode abrir novas oportunidades de exportação para os agricultores.

7. Preservação de tecnologias existentes: o uso alternado de biodefensivos e defensivos químicos pode ajudar a preservar a eficácia dos pesticidas químicos, retardando o desenvolvimento de resistência entre as pragas.

Desafios e oportunidades

A CropLife Brasil, ao analisar a adoção de bioinseticidas, biofungicidas e nematicidas na horticultura, identifica vários desafios e oportunidades. Estes aspectos são fundamentais para entender o atual cenário e o futuro potencial desses produtos biológicos no setor agrícola.

Crédito: Shutterstock

Desafios

• Necessidade de assistência técnica especializada: os produtores rurais muitas vezes requerem orientações específicas para utilizar esses produtos de maneira eficaz, dada a sua natureza e mecanismo de ação diferenciados.

Tradição no uso de pesticidas químicos: existe uma forte tradição e familiaridade com o uso de defensivos químicos no manejo de pragas e doenças. Mudar essa mentalidade para incorporar biológicos exige tempo e esforço educacional.

• Necessidade de manejo e monitoramento aprimorado: o uso de produtos biológicos demanda um manejo e monitoramento mais refinados e frequentes, pois sua eficácia pode depender de condições específicas, como nível de pragas.

• Desconhecimento das peculiaridades e tecnologia: há um desconhecimento significativo por parte dos produtores rurais sobre as peculiaridades e a tecnologia envolvida na produção de um produto biológico. Esses produtos não são simplesmente a multiplicação de um microrganismo da natureza, mas envolvem técnicas avançadas e alta tecnologia, incluindo técnicas genômicas e formulações para garantir a efetividade, a estabilidade do produto e aumentar a eficácia.

Biológicos não deixam rastros

De acordo com os resultados alcançados nas edições do programa MipXP entre 2020 e 2023, todas as análises de resíduos realizadas mostraram 100% de conformidade, com níveis de resíduos abaixo do Limite Máximo de Resíduos (LMR) estabelecido para cada produto e cultura.

Esta redução nas não conformidades relacionadas aos resíduos químicos é um dos principais objetivos do programa, evidenciando a eficácia do uso combinado de biológicos com químicos na produção de alimentos seguros e na utilização correta dos agroquímicos associados a biodefensivos.

Além disso, o programa MipXP demonstrou uma redução na emissão de gases de efeito estufa em culturas de berinjela e pimentão, quando comparado ao sistema convencional, que não utiliza biológicos. Esta observação sublinha a contribuição dos biológicos para a mitigação das mudanças climáticas e a promoção de práticas agrícolas mais sustentáveis.

Importante destacar, também, que o programa MipXP comprovou que a produtividade em cultivos de hortifrútis utilizando biológicos é igual ou até superior àquela da agricultura convencional.

Este resultado ressalta a eficácia do uso integrado de biológicos com agroquímicos, alinhando-se aos princípios da agricultura regenerativa.

Opções em biológicos para HF

Atualmente, há disponibilidade de uma ampla gama de produtos biológicos contendo agentes macro e microbiológicos. Dentre os macrobiológicos destacam-se as microvespas, sendo a principal espécie o Trichogramma pretiosum, parasitoide que controla ovos de diversas espécies de pragas-chave, como traça-do-tomateiro, traça-das-crucíferas e outras.

Algumas espécies de predadores também têm sido utilizadas em áreas de produção de hortaliças, como o ácaro predador Stratiolaelaps scimitus, utilizado no manejo de pupas de tripes em diversos cultivos e larvas de Fungus gnats em áreas de produção de mudas de diversas espécies de hortaliças, flores e frutas.

Quanto aos microbiológicos, destacam-se diversas espécies de bactérias, principalmente do gênero Bacillus spp., utilizadas para o controle de diversas espécies de lagartas, os Baculovirus, especialmente a espécie Baculovirus spodoptera, utilizado para o controle da lagarta-cartucho do milho, que além desta cultura também ataca mais de 180 espécies vegetais de importância agrícola.

Há, ainda, os fungos entomopatogênicos, que controlam insetos-praga, com destaque para Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e Isaria fumosorosea, além do fungo Trichoderma spp., frequentemente utilizado para o controle de diversas doenças de solo e que atacam a parte aérea de diversos cultivos de hortaliças.

HF’s favorecidas

Atualmente, os principais cultivos de HF favorecidos pelo uso dos biológicos no Brasil são tomate, batata, pimentão, morango, citrus, abacate, banana e uva. O uso do controle biológico nestas culturas tem contribuído efetivamente com o manejo sustentável de pragas e doenças, agregando benefícios do campo à mesa do consumidor.

Os agentes macro e microbiológicos utilizados nestas culturas têm registro para importantes pragas, como mosca-branca, cigarrinhas, tripes, ácaros, dentre outras. Importante ressaltar que o registro dos biológicos junto aos órgãos regulamentadores são realizados por alvo e não por cultura.

Isso também é um dos aspectos que favorece o controle biológico em HF, pois agentes biológicos com registro para a aplicação em cereais, cultivados em grandes áreas, também podem ser empregados para os mesmos alvos nos cultivos de HF, com alto valor agregado, porém, produzidos em pequenas e médias propriedades.

As minor crops

Os biológicos atendem efetivamente às necessidades das minor crops, representando uma vantagem substancial para esses tipos de cultivo. A característica principal dos biológicos, particularmente dos microrganismos, é que eles são registrados com base nos alvos – como pragas, doenças ou nematoides – em vez de se concentrarem em culturas específicas.

Esta abordagem de registro traz vantagens notáveis para as minor crops, ampliando significativamente sua aplicabilidade. Isso implica que mesmo culturas menos comuns, que geralmente dispõem de um número limitado de opções de defensivos químicos registrados devido à sua produção e mercado em menor escala, podem se beneficiar dos biológicos.

Biológicos: fitossanidade sob controle

Carlos Alberto Tuão Gava
Doutor em Proteção Vegetal e pesquisador – Embrapa Semiárido
carlos.gava@embrapa.br

Atualmente, há uma definição bem ampla do que seriam os biopesticidas, ou pesticidas biológicos. Por essa definição, qualquer organismo ou metabólitos produzidos por esses organismos que possam ser aplicados para reduzir a população de outros organismos que causem danos as culturas, incluindo produtos de origem botânica, são considerados biopesticidas.

Concentrando apenas na aplicação de organismos vivos para o controle de pragas e doenças, teríamos os bioinseticidas, biofungicidas e nematicidas, além de outros grupos menores, como os moluscidas, aplicados no controle de caramujos.

Quem são eles?

Os bioinseticidas são formados por um grupo de macro e microrganismos utilizados para o controle de pragas. Entre os macrorganismos temos os predadores e parasitoides, enquanto entre os microrganismos há fungos, bactérias, nematoides e vírus que causam doenças nas pragas agrícolas, como os insetos, ácaros e até mesmo caramujos, levando à redução da sua população e dos prejuízos que podem causar.

Já os biofungicidas são um grupo formado por fungos e bactérias que usam alguns mecanismos para afetar a população de fitopatógenos, dos quais os principais são a competição por substrato e nutrientes, produção de antibióticos e o parasitismo para impedir a proliferação de patógenos.

Alguns desses mesmos mecanismos também podem ser aplicados contra bactérias fitopatogênicas. Enquanto isso, como o próprio nome diz, os bionematicidas são produzidos com fungos e bactérias que são capazes de reduzir o ataque de nematoides fitopatogênicos às lavouras.

Eles podem usar mecanismos como desorientação, produção de antibióticos e predação para eliminar os juvenis infectivos e adultos no solo ou na rizosfera (proximidade das raízes) e nas raízes das plantas.

Expansão dos biológicos

Nos últimos anos, o mercado de biopesticidas tem se expandido rapidamente devido a uma maior conscientização do produtor, mas principalmente pelo entendimento de que o sucesso do controle não será alcançado com uma única prática.

Hoje, o Brasil é o maior usuário de produtos de controle biológico do mundo, com mais da metade dos produtores utilizando pelo menos um produto biológico no seu sistema de produção.

O desenvolvimento de populações resistentes de pragas e doenças e o risco de intoxicação do produtor e do consumidor são outras duas grandes causas por trás do rápido crescimento do mercado de produtos biológicos.

Outras vertentes são o desenvolvimento de uma nova geração de produtos com alta tecnologia embarcada, que se caracteriza pela seleção e produção de ingredientes ativos (organismos) e formulações mais eficientes, além da realização de pesquisas para o desenvolvimento de estratégias de aplicação que levem ao controle eficaz das pragas e doenças.

Com isso, a incorporação de biopesticidas nos planos de manejo das culturas permite maior rotatividade de ingredientes ativos e reduz o risco de contaminação do ambiente e dos produtos agrícolas, bem como do produtor.

Estratégia eficiente

A aplicação do ingrediente ativo correto e utilizando estratégia adequada faz com que o uso de biopesticidas alcance eficiência de controle igual à aplicação de pesticidas convencionais.

Contudo, é preciso lembrar que há diferentes interações entre os agentes de controle (biopesticidas) e as pragas e patógenos, o que resulta em redução da sua população e, portanto, controle dos danos.

É preciso alterar a forma de tomar decisões quanto a aplicação dos produtos quando analisamos o uso de biopesticidas, e entender que eles têm mecanismos de ação muito diferentes entre si e dos pesticidas convencionais.

Além disso, mesmo com o avanço das formulações, os agentes de biocontrole podem ser afetados pelo pH da calda, pelas condições climáticas no momento da aplicação e pela mistura de produtos.

Casos reais

Fazendo uma análise simples de alguns casos concretos: a aplicação de vírus ou Bacillus thuringiensis para o controle de lagartas é muito mais eficiente quando atinge as lagartas logo após a eclosão dos ovos.

Portanto, o monitoramento para identificar a entrada de adultos na área de produção ou a existência de oviposição leva a um maior sucesso no seu uso.

Bacillus thuringiensis é muito eficiente no controle de lagartas
Crédito: José Salazar

Analisando o controle de patógenos causadores de podridões radiculares, a aplicação dos agentes de controle deve começar na fase de produção de mudas, para que as raízes já cheguem colonizadas ao plantio. A aplicação deve ser repetida nas covas e em pós-plantio, com estratégia definida caso a caso.

No caso do controle de nematoides, por exemplo, há um grupo de bactérias que produzem metabólitos, alguns deles voláteis, capazes de mascarar os compostos químicos que os juvenis usam como sinal para encontrar as raízes.

Sua combinação com outro agente de controle capaz de parasitar os nematoides pode levar ao maior sucesso na aplicação de bionematicidas.

Benefícios ao solo

Há sempre um benefício indireto, que seria permitir reduzir ou eliminar a aplicação e produtos sintéticos que têm impacto sobre a atividade biológica do solo. Mas, principalmente, um grande número de agentes microbianos de controle biológico desempenha outros papéis no solo.

Entre eles está a participação no ciclo biogeoquímico de nutrientes, o nome técnico que damos ao processo de ciclagem de nutrientes com a mineralização da matéria orgânica, e a liberação de nutrientes que estão estocados no solo na forma lábil.

Embora existam outros casos, o mais emblemático é a solubilização de fosfatos por agentes microbianos. Muitos dos agentes de controle biológicos também possuem estas características, mesmo que não sejam especialistas.

Interessante, também, é o fato de que algumas espécies de Bacillus são capazes de fazer a fixação biológica de nitrogênio. Ressalte-se que, em todos esses casos, embora os agentes microbianos possam apresentar essas características, eles não foram selecionados para essa função, mas como agentes de controle.

Restrição

Há algumas causas para o fato de que todos produtores ainda não adotaram o uso de biopesticidas. Poderíamos alegar que uma delas é a descrença do produtor, ou a cultura do agrotóxico, mas em um país em que a maioria dos produtores já faz uso da tecnologia, esse argumento perde força.

Uma limitação importante é que cerca de apenas 15% das pragas e doenças têm pelo menos um agente de controle registrado. Temos visto um rápido avanço nessa questão e a imensa biodiversidade brasileira possui um estoque de potenciais agentes de controle que vamos explorar para desenvolver novos produtos.

Talvez a mais importante seja a carência de conhecimento adequado por parte de produtores e técnicos quanto à tecnologia. As informações e observações usadas para a tomada de decisões importantes, como o momento de fazer a aplicação dos produtos, ainda são baseadas na aplicação de pesticidas convencionais.

Isso e outras causas levam a uma baixa repetibilidade do sucesso da aplicação, criando insegurança. Portanto, a carência de informações de qualidade chegando ao produtor para que use corretamente a tecnologia, se torna um grande limitante.

Temos trabalhado incessantemente para desenvolver informações com estratégias adequadas, baseadas no ciclo da praga ou doença e nas características dos agentes de controle para que o produtor tenha segurança de que a tecnologia funciona e passe a fazer uso dos biopesticidas no manejo integrado de pragas e doenças.

Agentes biológicos: os pequenos grandes notáveis

José Eduardo Marcondes de Almeida
Pesquisador científico do Instituto Biológico
jose.marcondes@sp.gov.br​​​​​​​

Os predadores podem ser incorporados ao sistema agrícola a partir da aquisição de criadores específicos, ou mesmo por um manejo conservativo, diminuindo o uso de produtos químicos em geral.

Crédito: Shutterstock

As tesourinhas, joaninhas (Cicloneda sanguínea, entre outras e crysopas (Chrisoperla externa) são os insetos normalmente utilizados em hortaliças, porém, existem ainda os ácaros predadores, que são comercializados por empresas e possuem registro no MAPA.

Microrganismos benéficos

Normalmente se usam fungos como Trichoderma harzianum para o controle de doenças de solo como mofo branco, Bacillus subtilis para o controle de doenças e nematoides fitopatogênicos e B. pumilus para o controle de fungos foliares.

Para o manejo integrado funcionar, é muito importante que o produtor conheça as principais pragas e doenças da sua cultura, além, é claro, dos principais agentes de controle biológico, pois essa identificação possibilita que o produtor possa tomar a melhor decisão a respeito de fazer ou não o controle.

Deve-se iniciar a aplicação de agentes de controle biológico antes que a praga cause danos, e assim produzir equilíbrio na lavoura. Recomenda-se utilizar o controle químico somente em último caso, com produtos compatíveis aos agentes de controle biológico.

Monitoramento de pragas

O monitoramento em sistemas de manejo biológico é igual em qualquer manejo. Pode-se utilizar a contagem visual e manual das pragas em amostragem na cultura, utilizar iscas ou armadilhas e até mesmo sistemas de monitoramento remoto.

A única questão é que se deve tomar a decisão antes de a praga causar algum dano, pois o controle biológico é mais lento que o químico.

Sinais indicadores

O principal indicador da eficácia dos biológicos é quando a população da praga está em equilíbrio, não causando danos, mesmo presente na cultura, o que é natural. Outro indicativo é a presença de outros agentes de controle biológico de maneira natural na lavoura.

Estratégias

O uso de variedades resistentes a pragas e doenças é um dos melhores métodos de controle, pois diminui drasticamente ações que o produtor precisará fazer, seja aplicação de biológicos ou de químicos.

Injúrias causadas pela traça-do-tomateiro
Crédito: Embrapa Hortaliças

As principais características ao selecionar variedades resistentes são: boa produtividade, resistência às principais pragas e doenças e adaptabilidade ambiental.

Sustentabilidade da agricultura

O conceito de sustentabilidade tem como premissa que a cultura possa se desenvolver de maneira mais natural possível, permitindo o menor impacto ambiental e que a natureza retome seu equilíbrio, mesmo em áreas de cultivo artificialmente implantadas, além, é claro, de rentabilidade ao produtor.

O controle biológico permite tudo isso.

Tendências

A prospecção de novos agentes de controle biológico de pragas e doenças é uma tendência geral e importante para o desenvolvimento de novas técnicas.

O desenvolvimento de técnicas de produção em massa de agentes de controle biológico é outra prática de pesquisa constante e necessária para que possa ter os agentes em quantidade possível de serem aplicados.

Estudos de metabólitos e genética de agentes de controle biológico também são uma tendência atual.

Em prol da pesquisa

O Instituto Biológico é uma das instituições brasileiras que está diretamente ligada à pesquisa de novos agentes de controle biológico, sistemas de produção de agentes, pesquisa de manejo biológico e integrado e difusão do manejo biológico.

O IB possui cepas na especificação de referência para agricultura orgânica do MAPA, tais como: IBCB 66 Beauveria bassiana; IBCB 425 Metarhizium anisopliae e IB 19/17 Trichoderma harzianum, todas selecionadas e difundidas em praticamente 100% das empresas de produtos biológicos do Brasil.

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