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Controle fitossanitário acertado da macieira

A saúde da macieira é fundamental para uma colheita de qualidade, por isso, é preciso fazer o controle da mariposa oriental

José Luis da Silva Nunes
Engenheiro agrônomo e doutor em Fitotecnia – Badesul Desenvolvimento
jose.nunes@badesul.com.br

A macieira é uma das principais frutíferas de clima temperado cultivadas e exportadas do Brasil. Os pomares estão localizados principalmente na região sul, com destaque para os Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, onde se encontram aproximadamente 96% da produção nacional da fruta.
Um dos principais problemas fitossanitários enfrentados pelos pomicultores no Brasil tem sido o manejo de pragas, com destaque para a Grapholita molesta (Lepidoptera: Tortricidae), comumente conhecida como mariposa oriental ou grafolita.

Praga importante

Na região sul do Brasil, a mariposa oriental é considerada uma das principais pragas em frutíferas da família Rosaceae (ameixeira, marmeleiro, pereira e pessegueiro) devido aos danos significativos causados nestas culturas.
No caso específico da cultura da maçã, já no início da década de 1990 a mariposa oriental se tornou uma das principais pragas da cultura no Sul do Brasil, onde foram registrados danos de aproximadamente 90% dos frutos em muitos pomares.
Com o passar dos anos, observou-se uma rápida dispersão da espécie para todas as regiões produtoras, acompanhando a expansão do cultivo da macieira, passando de regiões produtoras de Rosáceas de Santa Catarina (Fraiburgo e São Joaquim) para regiões do Rio Grande do Sul (Vacaria e Bom Jesus).

Foto: Rasip Agro

Danos

O dano provocado pela praga é ocasionado exclusivamente durante a fase de lagarta em ponteiros e/ou em frutos. As lagartas, ao se alimentarem, provocam a abertura de galerias no interior dos frutos ou nas brotações (ponteiros) das plantas.
Nos ponteiros, o ataque provoca a mudança de coloração, tornando-os escuros e afetando a arquitetura das plantas, diminuindo a taxa fotossintética e a produção.
Já nos frutos, o ataque pode ser observado em frutos verdes e maduros, ocorrendo preferencialmente na região do pedúnculo ou do cálice. As lesões ocasionadas pelo ataque da praga permitem a entrada do fungo causador da sarna da macieira (Venturia inaequalis) e vice-versa.

Sinais da praga

O ataque das lagartas é facilmente reconhecível pela presença de excrementos com aspecto de serragem deixados pela lagarta em seu local de penetração no fruto. Além disso, a ação da mesma no interior dos frutos se caracteriza pela produção de galerias, o que deprecia comercialmente os mesmos.
Os danos nos frutos inviabilizam a comercialização, podendo resultar em perdas de mais de 5% da produção anual de maçãs.

Monitoramento da flutuação populacional

O controle populacional da praga deve ser realizado por monitoramento, utilizando-se armadilhas do tipo Delta, contendo feromônio sexual sintético feminino, que promove a captura específica de machos.
A armadilha é composta por um recipiente triangular (Delta) com piso adesivo e um septo de borracha liberador do feromônio sexual posicionado no centro do piso. As armadilhas devem ser distribuídas no interior do pomar, colocadas na planta a uma altura de 180 cm, sendo utilizada uma armadilha a cada de três hectares ou, para pomares menores do que isto, duas armadilhas.
O liberador de feromônio deve ser trocado a cada 28 dias e o piso, quando perder a adesividade. O material substituído deve ser retornado ao fabricante.

Controle comportamental

O uso da técnica da interrupção do acasalamento (TIA) é uma ferramenta de controle da mariposa oriental visando dificultar o encontro de machos e fêmeas, pela liberação e saturação do ambiente com feromônio sexual de praga, diminuindo a probabilidade de crescimento da população nas gerações seguintes.
O nível populacional da mariposa oriental nos pomares de maçã é um dos fatores que mais influencia a eficiência da TIA, visto que a distância entre os indivíduos (definida pela baixa ou a alta população) tem influência na probabilidade de acasalamento. Ou seja, quanto maior a população, menor a eficiência da técnica.
Dessa forma, a observação das capturas da primeira geração (pós-diapausa) tem auxiliado na definição das áreas onde a TIA pode ser utilizada de maneira segura, sendo considerado que capturas até o nível de dano econômico desta população é um indicativo de baixa população.
Caso seja observado nível fora deste padrão, não se recomenda a contenção da praga exclusivamente com feromônio, optando-se sim pelo seu uso integrado com inseticidas, visando reduzir a população presente no pomar.
Cabe ressaltar que as bordaduras, independente do tamanho dos pomares, permanecem como locais de maior risco de insucesso da tecnologia, já que a concentração do feromônio sexual tende a ser menor em relação à região central (efeito de bordadura).
Isto ocorre porque, em função da ação do vento, o feromônio é deslocado, permitindo a formação de bolsões com menor concentração de ingrediente ativo, o que possibilita o encontro entre machos e fêmeas. Além disso, na bordadura do pomar pode ocorrer migração de fêmeas fecundadas de áreas vizinhas.
É importante ressaltar também que a TIA não apresenta efeito sobre os insetos já acasalados, ovos ou formas jovens (lagartas). Diante disso, é importante que os produtores tenham o histórico da flutuação populacional da praga em cada pomar, pois para que a TIA seja eficaz, é importante instalar os emissores de feromônio antes do primeiro pico populacional, a fim de evitar o acasalamento desde as primeiras gerações, protegendo a cultura durante todo o ciclo.

Controle cultural

O controle cultural pode ser representado por:

a) Ensacamento dos frutos: usado principalmente em área de produção orgânica, é uma alternativa para reduzir os danos da praga pelo uso de frutos com sacos de tecido não texturizado (TNT), no período compreendido entre o raleio dos frutos (ou 40 dias após a floração) até a colheita, devendo ser bem fechados na parte superior junto ao ramo, devido ao hábito das lagartas de penetrarem pelo pedúnculo dos frutos. Observa-se que o ensacamento pode resultar no aumento de queimaduras de sol e redução na cor das frutas;

b) Raspagem dos troncos: esta prática, aplicada durante o período do inverno, deve ser associada com a aplicação localizada de inseticidas, proporcionando uma redução significativa dos níveis populacionais da praga na primeira geração anual que ocorre no pomar (geração pós-diapausa).

Controle biológico

Controle químico

O conhecimento e a conservação dos inimigos naturais associados ao controle da mariposa oriental na cultura da macieira são fundamentais para o manejo integrado da espécie.

O controle da mariposa oriental foi realizado principalmente com o emprego de inseticidas organofosforados e piretroides, devido à alta eficiência e ao baixo custo e, na maioria das vezes, à ação de profundidade, ocasionando mortalidade das lagartas dentro do fruto ou ponteiros.
Entretanto, fatores ligados à toxicidade e baixa seletividade a inimigos naturais geram uma necessidade de se buscar alternativas de controle.
Como alternativa para controle da mariposa oriental, atualmente encontram-se registrados inseticidas pertencentes ao grupo das espinosinas, éter difenílico, diamidas antranílicas, benzoilureias e neonicotinoides.
Esses produtos destacam-se pela elevada toxicidade sobre diferentes fases de desenvolvimento do inseto (ovos, lagartas e adultos), sendo autorizados para uso na cultura da macieira para o controle da praga.
No caso dos inibidores da síntese de quitina, as aplicações devem ser realizadas no início do voo dos adultos, repetindo-se os tratamentos 10 a 12 dias após a primeira aplicação. Porém, deve-se evitar o emprego do inseticida no período de pré-colheita, visto que os insetos necessitam ingerir o produto para que este seja eficiente, resultando em danos aos frutos.
Produtos moduladores de receptores de rianodina, por possuírem maior efeito de choque e atividade residual, podem ser reaplicados com intervalos de até 20 dias. Esses inseticidas devem ser utilizados visando ao controle das primeiras gerações da praga, pois no período de pré-colheita ocorre ataque simultâneo com a mosca-das-frutas.

Manejo da resistência a inseticidas

Eficiente manejo fitossanitário garante fruta de qualidade
Foto: Rasip Agro

As características bioecológicas da mariposa oriental de várias gerações sucessivas (de quatro a sete gerações por ano), elevada fecundidade e baixa preferência por hospedeiros alternativos associado à alta pressão de seleção, exercida pelo uso de inseticidas com o mesmo modo de ação, podem contribuir para a evolução da resistência da praga a inseticidas nos pomares.
Mudanças na suscetibilidade da mariposa oriental a inseticidas vêm sendo verificadas no Brasil para os grupos químicos organofosforados (Grupo 1B), benzoilureias (Grupo 15), diacilhidrazinas (Grupo 18) e diamidas (Grupo 28).
Como exemplo, pode-se citar que foram observadas variações na suscetibilidade da praga para os inseticidas dos grupos químicos dos organofosforados e diacilhidrazinas no período entre a década de 2010 a década de 2020.
Há indicativos de que o uso sucessivo destes princípios ativos levou a seleção para a resistência em populações coletadas em diversos pomares das regiões produtoras, demonstrada pela baixa eficiência de inseticidas destes grupos químicos no controle da praga.
Devido a isso, programas de monitoramento da resistência visando detectar mudanças na suscetibilidade das populações da mariposa oriental são essenciais para prevenir e retardar a evolução da resistência aos inseticidas.
Além disto, recomenda-se a utilização de inseticidas com diferentes modos de ação para o manejo da praga, associado ao seu uso somente quando o nível de controle é atingido e ao emprego da técnica de confusão sexual, visando retardar a evolução da resistência aos inseticidas disponíveis para o seu controle.

Atenção

O correto conhecimento da biologia e ecologia da G. molesta, das práticas de monitoramento, do uso de técnicas de controle adequadas e de formas eficazes de evitar a seleção de populações resistentes, pode auxiliar na diminuição dos prejuízos resultantes de seu ataque na cultura da macieira.
As informações contidas nesse texto pretendem auxiliar na escolha de práticas adequadas de manejo das populações da mariposa oriental, visando garantir a produção de frutos de qualidade, sem a presença de resíduos de agrotóxicos e com o mínimo impacto ambiental.

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